domingo, 15 de dezembro de 2019

O CLIMA DO ANO


Há tempos venho notando que a natureza absorve nossos humores, mas isso é assunto pra outro post.
Lembro que, em 2016, meu pé de amora ficou tão carregado que deu até pra fazer um panelão de geleia. Que benção! Nesse ano, também, as duas jabuticabeiras foram pródigas e eu me fartei.
Os anos seguintes foram de penúria: a amoreira ficou amuada e as duas jabuticabeiras, apesar dos mimos, não deram uma jabuticabinha sequer. E continuou assim em 2017 e 2018, para minha profunda frustração. Malvadas!


Este ano, para minha surpresa, foi diferente: o jabuticabal (como chamo as duas únicas jabuticabeiras) jabuticabou à bessa e a amoreira se encheu de amores, digo, amoras. Foi uma fartura. O mesmo aconteceu com as flores. Este ano, a florada só não foi muito boa pra magnólia, que anda de maus humores, mas glicínias, azaléas, buquê de noiva, kalanchoes e as outras floriram a valer. E, agora, abro a janela e vejo as hortênsias florindo profusamente. Nunca as vi tão alegremente coloridas.

Ainda há esperança...

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

ADEUS, BOBBY!


Há dois anos, Bobby apareceu portão do vizinho. Estava sujo e faminto. Vi logo que era um cãozinho de raça, embora eu odeie essa distinção que os "humanos" façam até mesmo com os animais. Era cego de um olhinho. Dei-lhe banho e comida, e ele agradeceu dando uma lambida no meu nariz. Chamei a veterinária e ela me disse que já era velhinho e, talvez por isso, o tivessem abandonado. Nesse mesmo dia, pulou na minha cama à noite, sem a menor cerimônia, e desde então passou a dormir comigo. De dia, era alegre, brincalhão e muito amoroso, Adorava o Brownie, que tentava imitar, fazendo-me rir muitas vezes. De uns dias para cá, notei que já não consegui pular na minha cama e eu tinha de ajudá-lo. No sábado de manhã, não quis comer. Me preocupei, mas quando voltei da rua, estava no portão, me recebendo todo feliz. Só ontem pela manhã é que comecei a ficar mesmo preocupada. Já estava andando com dificuldade e eu me preparava para levá-lo hoje ao veterinário. Não deu tempo, morreu ontem à noite, no dia do aniversário da vovó LIna. Sinto uma tristeza infinita Dormi muito mal sem você, meu filho. Adeus!

domingo, 18 de novembro de 2018

TEREZINHA - PARTE FINAL


 
("Almoça com Pedro, janta com Pedro, dorme com Pedro e não sabe quem é Pedro" 
(Lina Spallato, minha avó)

Mas quem era Terezinha? Era uma espécie de Gata Borralheira – sim, elas existem – que mamãe salvou da bruxa má. Terezinha vivia ao lado da nossa casa e era muito maltratada pelo que parecia ser sua patroa ou dona. Não sabíamos e nunca se soube que idade teria, mas o que víamos nos horrorizava. A menina, pequena e franzina, recebia tratamento pior do que um cachorro vira-lata. Vivia apenas de calcinha, fizesse frio ou não, e estava sempre no quintal, lavando uma pilha de louças numa pia. Altas horas da noite, com chuva torrencial, a menina estava lá no quintal lavando louça, enquanto a vizinha recebia seus amigos. Terezinha era a empregada daquela família de pai, mãe e dois filhos. As crianças, filhas da vizinha, eram bem vestidas e alimentadas, em contraste flagrante com Terezinha. Aquela maldade deixava minha mãe doente de indignação, mas naquele tempo ela não podia fazer nada legalmente e denúncias caíam no vazio. Um dia, mamãe se aproximou da cerca e perguntou se a senhora lhe daria Terezinha para criar. Ela respondeu que não e falou muito mal da menina. Disse que era uma menina de parte com o Cão. O sofrimento diário de Terezinha foi causando tanta raiva na mamãe que seu sangue meridional começou a ferver. Tornou-se uma obsessão para ela arrancar Terezinha daquela casa. E desenvolveu um plano. 

Esperou que sua amiga, Nair, viesse visitá-la. Naquele tempo, telefone era coisa rara, mas a gente sabia que Nair apareceria, como costumava fazer, pelo menos uma vez por mês. E quando Nair chegou minha mãe contou-lhe o plano. Ela ia sequestrar Terezinha num dia em que a família saísse e a deixasse sozinha. Mamãe já tinha conversado com Terezinha e perguntado se ela queria fugir dali. A menina logo respondeu aflita e chorando que sim. Mamãe pediu-lhe segredo. A outra parte do plano era combinar com a Nair quando ela deveria voltar para levar Terezinha. Tudo deveria ser rápido e coordenado. A família costumava se ausentar aos domingos e era nesse dia que o plano entraria em ação. 


No domingo combinado, Nair chegou cedo em casa e mamãe ficou esperando a família sair. Ela se aproximou da cerca e abriu espaço no arame para Terezinha passar. Correu com ela para dentro de casa e quando a vimos de perto nosso espanto cresceu. O cabelo desgrenhado parecia nunca ter visto um pente. Estava suja e fedorenta, tinha o corpo coberto de equimoses das muitas surras que lhe davam e queimaduras de pontas de cigarro ainda inflamadas. Nair chorou de tristeza e a abraçou com carinho. Imediatamente a adotou como filha. Terezinha parecia catatônica, não reagia. Tinha os olhos arregalados e incrédulos. Levaram-na ao banheiro e deram-lhe banho. Custaram a tirar toda a crosta que lhe cobria o corpo e tiveram que usar o sabonete (não havia shampoo) várias vezes, até tirar toda a sujeira do cabelo, e depois tiveram um trabalho enorme para desembaraçar, até que desistiram e acabaram cortando-o bem curto, para que Terezinha não sofresse mais. Não que ela chorasse ou reclamasse, mas se lhe notava a dor nos olhos. Ao sair do banheiro, já limpa e vestida, parecia outra menina, mas ainda estava assustada. Era linda, morena e de traços delicados. Tinha sotaque nordestino e era tudo que sabíamos dela. Mamãe pediu que Nair fosse embora correndo com ela. E assim foi, para alívio de todos.


Horas depois, a vizinha voltou da rua e gritou: “Terezinha, Terezinha!” Ouvíamos tudo escondidas dentro de casa. Claro que Terezinha não atendeu e aí a vizinha veio até a cerca e chamou mamãe. Perguntou-lhe se tinha visto Terezinha e mamãe, na maior calma, respondeu que não fazia ideia de onde ela poderia estar. A mulher a olhou desconfiada, mas não disse nada. Com o tempo, ela entendeu que mamãe tinha-lhe “roubado” a escrava, mas nunca a confrontou. E ficou por isso mesmo. 


Nair levou a menina ao médico para exames e ficou constatada a debilidade física de Terezinha. Aparentava ter uns 5 anos, mas o médico disse que deveria ter pelo menos 8. Nair passou maus bocados, porque o médico suspeitou que era ela quem havia infligido tratamento tão desumano em Terezinha. E receitou-lhe vitaminas. Em pouco tempo, Terezinha ganhou peso e cresceu. Nair a registrou como filha, deu-lhe o nome de Terezinha de Jesus e sobrenome também. Não podia trazê-la, obviamente, à nossa casa e talvez isso nos fez perder contato com Terezinha, até que, anos depois, quando nos mudamos, ela veio nos visitar. E foi então que percebi que era mais velha do que eu, já era uma adolescente, enquanto eu ainda era criança. Os dias que passou em nossa casa foram poucos e preciosos, mas foram dias de aprendizado, dias em que a semente da rebeldia começou a germinar em mim.
Com o tempo, Terezinha se distanciou, até mesmo da Nair que a tratava como filha. Nunca a vi demonstrar gratidão com a minha mãe, que lhe salvou a vida. Terezinha não fora criada para amar ninguém, porque só havia recebido maus tratos e desamor nos primeiros anos em que as crianças dependem do amor para se desenvolverem emocionalmente. Soubemos que visitava Nair ocasionalmente. Também soubemos que se casou e teve filhos. Depois, mais nada, nem um fiapo de notícia. Pouco a pouco, foi desaparecendo na bruma densa e misteriosa que parecia ter-lhe cercado a vida inteira, desde sua origem.

TEREZINHA - PRIMEIRA PARTE


“A realidade pode ser mais incrível que a ficção” (pensamento extraído do livro “Santa Evita”, de Tomás Eloy Martinez)

Ainda me lembro, como se fosse hoje, de quando Terezinha foi passar uns dias lá em casa. Ela seguiu pacientemente toda a rotina dura que mamãe nos impunha, sem reclamar: almoço às 12 em ponto, estivéssemos ou não com fome, lanche às 14h, composto de mate e pão com manteiga, e quem nos avisava era o ruído de um avião que passava naquela hora, e jantar às 18h, quando mamãe ouvia no rádio a “Hora da Ave Maria”, depois de deixar um copo d’água ao lado do aparelho, para nos proteger de todo o mal. Depois, seguia-se “Pausa para Meditação”, programa de Júlio Louzada, em que o radialista apresentava casos reais de ouvintes que lhe escreviam contando seus problemas e conflitos, e terminavam dizendo: “Me aconselha, seu Júlio Louzada”. Teve até uma marchinha de carnaval fazendo troça, gíria da época: “A mulher do meu maior amigo me manda bilhete todo dia, desde que me viu, ficou apaixonada, me aconselha, seu Júlio Louzada.” Aqueles não eram tempos muito felizes e peço ao leitor que me permita divagar um pouco. Não fossem os sambas de breque, como se chamavam, a vida seria uma chatice infindável. Graças a um dos meus tios, muito bem-humorado, conheci alguns desses sambas e virei fã do Moreira da Silva “Etelvina, acertei no milhar”. Mas eu gostava também do “Parei meu carro na Praça Paris, eu e a Conceição, de repente ouvi um boa noite, eram o Cosme e Damião, que destacaram o papel amarelo, que situação!, é que distraidamente eu estacionei na contramão...” Cosme e Damião era como o povo se referia à dupla de policiais que patrulhava a cidade e “papel amarelo” era a multa de trânsito.

Antes do jantar, podíamos ouvir a novela “Jerônimo, o herói do sertão” cuja abertura era uma música assim: “Quem passar pelo sertão vai ouvir alguém cantar o herói desta canção que eu venho aqui cantar...” E a gente adorava escutar o Moleque Saci avisando Jerônimo do risco que corria com o Caveira (“Chumbinho, apresente seu relatório”): “Cuidado, Jerônimo!” https://www.youtube.com/watch?v=WtEaFIV8O2M
Era mamãe quem controlava o rádio com mão de ferro. Era sempre ela quem determinava o que se podia ouvir. Alguns programas a gente até gostava e acompanhava com atenção, como as novelas estreladas pela mocinha Dayse Lúcidi e o galã Roberto Fayssal. Eram maravilhosas e, se não me engano, eram levadas ao ar nos fins de semana, pela manhã. Também gostávamos de ouvir, arrepiadas de medo, o Almirante, em que uma voz cavernosa ameaçava na abertura do programa: “Incrível, fantástico, extraordinário! Você não acredita no sobrenatural? Então ouça!” Mas esse programa a gente escutava lá da cama, porque mamãe nos punha pra dormir e só ela ficava ao lado do rádio. Eu me pergunto até hoje por que as crianças, de todas as gerações, gostam tanto de programas e filmes de terror?

Terezinha ouvia tudo calada, mas uma hora se rebelou. Depois do programa do Júlio Louzada, mamãe deixava o rádio na mesma estação para ouvir “A Hora da Saudade”, um programa musical que tinha na abertura o cantor Augusto Calheiros cantando o poema “Ave Maria”: “Cai a tarde tristonha e serena em macio e suave langor, despertando no meu coração a saudade do primeiro amor...” Ouvir aquela valsa, embora bonita e poética, dava uma tristeza danada, uma vontade de sair correndo pelo mundo afora e fugir para sempre. Terezinha deve ter sentido o mesmo, porque depois da segunda música, perguntou de sopetão: “Vocês não ouvem “A Hora do Rock?" Nós nem imaginávamos o que era aquilo até ela nos explicar. Pediu permissão à mamãe para sintonizar na rádio Mayrinck Veiga o programa do Isaac Zaltman. Sem graça, mamãe consentiu e foi quando ela perdeu o domínio do rádio. “A Hora do Rock” passou a ser a nossa hora e tudo mudaria desde então. Acabava a “Hora da Ave Maria” e a gente pimba!, mudava para o programa, que já começava arrepiando com Bill Halley e seus Cometas cantando: “One-two-three o’clock four o’clock rock, five-six-seven o’clock eight o’clock rock...” E foi Terezinha quem nos ensinou a dançar o rock’n roll. Yayyy!

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

UM PAÍS INFELIZ E CHEIO DE GENTE ODIOSA

Talvez a coisa mais chocante que li na minha vida - e olha que li um monte de livros sobre campos de concentração - foram os comentários dirigidos à propaganda política de Haddad, em que Amelinha, barbaramente torturada pelo desgraçado do Ustra, descreve em detalhes tudo o que sofreu e conta como o maníaco ainda levou seus filhos para verem ela e o marido sujos, ensanguentados e vomitados. A filha pequena, quando a viu, perguntou: "Mãe, por que você está azul?" Os comentários são terríveis, monstruosos, inimagináveis: "ela fez por merecer", "santinha é que não era"... e por aí vai. 

A gente sabe que uma parcela da sociedade é formada por monstros, ou tantas desgraças não aconteceriam no mundo. Desde criancinhas nossos pais avisavam para tomar cuidado com estranhos. A gente sabe que a maldade existe. Mas estávamos longe de imaginar que cidadãos comuns, aparentemente do bem - aquela senhora, por exemplo, tão gentil -, fossem monstros. Dói saber que o país tantas vezes exaltado como acolhedor, de gente feliz e amiga não é tão acolhedor e amigo assim (que digam os venezuelanos, haitianos, sírios...). Não, nossa gente não é feliz. A gente até achou que aquelas senhoras de camisa da CBF, portando cartazes, eram apenas ridículas, que aqueles fortões de camisa verde e amarela não eram tão perigosos assim. Mas são, agora sabemos que eles dão medo. E dá medo também sair à rua, dá medo frequentar reuniões sociais, dá medo tentar fazer amigos.

Nunca mais seremos como antes. Da caixa de pandora nem a esperança restou.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

VIDA NA ROÇA - CAPRICHOS DA NATUREZA

Olhei da varanda para o jardim e notei que os tomates já estavam amadurecidos. Pois é, deu o maior tomateiro no jardim, perto da buganvílea, e já colhi uns dois quilos de tomate de lá - saborosíssimos e o melhor: totalmente orgânicos. No vaso de planta perto, tem um pé de tomatinho cereja e eu vou lá de vez em quando colher. Hum, deliciosos! Hoje mesmo comi dois, mas vem mais aí. Depois de colher os tomates, fui ao canteiro das roseiras colher....espinafre. A gente já tentou dar um indireta para o espinafre, que seu lugar é na horta, mas ele não faz caso. Não quer "espinafrar" na horta e é um direito seu. Todo ano, nasce de montão ao lado das roseiras. E não arreda pé. Fui lá e colhi uma ramada bem verdinha e exuberante. Vou fazer creme de espinafre...yummy, yummy. Planta aqui em casa nasce onde quer. Tô nem aí.
E hoje cedo fui ao quintal colher framboesas. É a estação delas. E aí notei que logo, logo vou ter amoras. O pé de jaboticaba está todo florido, assim como o pessegueiro. Mal posso esperar setembro chegar.

sábado, 18 de agosto de 2018

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE CHIQUINHO E SUA MÃE DESALMADA

Hoje acordei pensando no Chiquinho e no seu destino cruel, não sei se pela turbulência do momento, devido à crise que atravessamos, ou pelas maldades que vejo publicadas nas redes sociais. Chiquinho coloriu nossas vidas de criança e foi muito amado. Quis o destino, porém, que tivesse uma mãe desalmada. Mas antes falarei das condições e circunstâncias de tão malfadada sorte.
Nasci, me criei, passei minha adolescência e grande parte da minha vida adulta num subúrbio carioca. Éramos os chamados roceiros. Do centro da cidade “para trás”, ou seja, para a zona norte da cidade, não existíamos ou éramos ridicularizados pelos “granfinos” da zona sul, porque vivíamos praticamente no campo, em pequenas chácaras. Nossas casas eram “simples com cadeiras nas calçadas e na fachada escrita em cima que era um lar”, como na música de Garoto. Não faz muito tempo, li um artigo do Carlos Saldanha que, para quem não conhece, é um famoso diretor de cinema e produtor de filmes de animação como “Rio”, “A era do gelo”, etc. Pois bem, Saldanha nasceu em Marechal Hermes e ele conta como foi morar num subúrbio da zona norte num interessante artigo publicado na revista Época (quem se interessar, procure no Google). A cidade partida, da qual fala Zuenir Ventura em seu livro, sempre existiu, assim como sempre houve hostilidade do pessoal da zona sul contra a zona norte, mas naquele tempo tudo se resumia apenas à zombaria, e me parece que vigora até hoje, porque a estupidez humana é infinita. Foi meu avô, um abastado comerciante português, quem comprou uma chácara e levou a família, no início do século passado, para a zona norte. Foi lá que minha mãe e meus tios, eu, meus irmãos e meus primos todos nascemos. Foi lá que “crescemos e nos multiplicamos”.
Nossos vizinhos vinham de várias partes do país e do mundo, meu vizinho de baixo era mineiro e ele gostava de botar na vitrola uma música que dizia assim “quem pensar que o mineiro é bobo, vai cair na boca do lobo”. Seu Ítalo, como o chamávamos, foi o primeiro a comprar um aparelho de TV. À noite, ele abria a porta da sala e deixava-nos ver os programas, do lado de fora do portão, onde nos aglomerávamos diante daquela maravilha. Aos domingos, a entrada era franqueada à garotada para vermos o teatrinho Troll, com a princesa Norma Blum, e seu Ítalo generosamente nos oferecia frutas. Era o vizinho mais rico da rua, mas muito ciumento. Não deixava a mulher dele, uma senhora que passou a se vestir de negro depois que seu pai, com quem eu gostava muito de conversar, morreu numa manhã, e eu soube quando voltei da escola. Naquele tempo, velava-se o defunto nas casas, que se enchiam de vizinhos. Dona Edith, mulher do seu Ítalo, não ia à rua nunca, exceto em alguns passeios no Studebaker reluzente do marido. Por isso, era eu quem fazia as compras para ela todo dia. Dona Edith me dava uma listinha e, na entrega das compras, um trocadinho, que eu adorava, porque com aquele dinheiro podia comprar as figurinhas do álbum de cinema ou uma lata de leite condensado, que eu bebia devagarinho, às escondidas dos meus irmãos. O vizinho de cima era do interior do estado do Rio de Janeiro, eram os parentes da Vitória e Ledinha. Na casa deles tinha um pé de cajá, fruta que me enche a boca de água só de lembrar, um cajueiro e um pé de abiu, fruta em formato de amêndoa que nós pegávamos do pé quando estava bem amarelinha e nos deixava uma cola nos lábios, motivo de muitas brincadeiras. Mais adiante, subindo a rua, havia alemães e eu frequentava a casa dos Ballreich, originários de Essen, na Alemanha. Foi por causa deles que conheci a culinária e os costumes do país e também comecei a aprender alemão, língua que afinal não segui estudando, porque o inglês era mais legal e eu precisava dele para cantar as músicas que tocavam no rádio. “One, two, three, four rock around the clock, five, six, seven...” E enquanto aprendia inglês, eu cantava a música que mais fazia sucesso na época, “Jambalaya”. Eu imitava perfeitamente a Brenda Lee. Quando cantei a primeira vez no pátio da escola, a garotada ficou doida. As meninas passaram a me olhar com melhores olhos e os meninos com mais interesse. Mas graças a Brenda Lee descobri, ainda muito criança, que não fora feita para o estrelato. Era um saco ter de cantar toda hora “Jambalaya a-crawfish pie, a-file gumbo, ‘cause tonight I’m gonna see my ma cher amio...” Havia poloneses - como minha amiga Jeannette Iablonski, que se mataria anos depois, ateando fogo às vestes, por causa de um amor não correspondido - e italianos. Ainda me lembro dos rapazes italianos mais legais, Sergio, Domenico e Vincenzo, que me levavam a passear de Vespa pelo bairro, sem o conhecimento da minha mãe, claro, pois ela me mataria se soubesse. E tinha minhas amigas italianas, como a Mirella e a Brunella, de quem sou amiga até hoje. As músicas italianas faziam sucesso nas rádios, como “Datemi un martello”, da Rita Pavone, a romântica “Io che amo solo te”, do Sergio Endrigo e "Il Mondo". “Il mondo soltanto adesso io ti guardo, nel tuo silenzio io mi perdo e sono niente accanto a te...”O armazém, onde minha mãe fazia as compras do mês, era de um português, seu Belmiro, um senhor baixo e gordo, que gostava de agradar a freguesia. Quando minha mãe lhe pedia para fazer desconto, ele rapidamente consentia e na hora de somar, o que ele fazia de cabeça, dizia assim: “mais 7, mais, 2, mais 4... e lá vai 8, mas pra senhora vai 7”. No bairro ao lado, viviam algumas famílias espanholas, como os Ponce de Leon. Esse era meu universo e nele estava a casa da minha tia, uma pequena chácara, para onde íamos todos os dias, depois dos afazeres escolares, para brincar com os primos.

 A tia criava galinhas e aí um belo dia teve a ideia de criar porcos também. Não sei como começou, só me lembro que no chiqueiro que ela mandou construir havia uma porca enorme, barriguda e que daquela barriga saiu um monte de porquinhos, todos lindos e rosados, que nós quisemos logo pegar para brincar. Mas não, a tia não deixou, porque ela os alimentaria e os deixaria crescer para depois matá-los e comer a carne deles. Estávamos longe de imaginar os planos tenebrosos da tia e sempre que chegávamos a casa dela íamos correndo ver os porquinhos mamar. Nossa atenção passou a se concentrar num deles, o menor de todos, que nunca conseguia uma teta e ficava jogado num canto, emagrecendo a olhos vistos. Apontamos o porquinho para a tia e ela passou a prestar atenção.
Naquela época, poucas crianças tinham animais de estimação. Minha mãe dizia que já tinha trabalho demais para cuidar de quatro filhos. Quando estava para se casar, meu tio ganhou de presente um cachorrinho e pediu minha mãe para cuidar dele. Eu me apaixonei pelo cãozinho e aquela foi a primeira vez que tive em casa um animal de estimação, mas foi por pouco tempo. Certa vez, quando ia para a escola e já estava quase chegando, olhei para trás e, para minha surpresa, o cãozinho havia me acompanhado. Parei sem saber o que fazer. E aí me ocorreu uma ideia. Toquei a campainha de uma casa, a senhora veio atender o portão e eu lhe expliquei o que acontecera. Ela me olhou com ternura e disse que fosse tranquila para a escola. Ela cuidaria dele para mim. Ao voltar, parei na casa para pegá-lo e a senhora me contou que uma outra pessoa havia estado lá perguntando por ele. Quis levá-lo, mas ela não deixou, pois havia prometido que só o entregaria a mim. Foi a única experiência que tive com um pet até então, mas estava prestes a ter outra, muito mais intensa.
Um dia, quando voltava da escola, vi minha prima empurrando um carrinho de bebê. Aproximei-me, pensando tratar-se de uma nova boneca, pois ela as tinha aos montes, cada uma mais linda que a outra, mas todas ficavam guardadas em suas caixas originais num armário, pois eram de louça e a tia tinha medo que minha prima as quebrasse. Nunca vi minha prima brincar com elas. Uma vez, a tia quis nos mostrar a mais nova boneca que minha prima ganhara no Natal e, ao pegá-la, ela escorregou da caixa e caiu, espatifando-se no chão, para horror de todos nós. Minha tia ficou em estado de choque, porque era uma boneca caríssima e eu fiquei muda, estática, sinceramente de coração partido. Mas o que estava no carrinho de bebê que a prima empurrava não era uma boneca - era um porquinho e ele estava todo perfumado e vestido tal qual um bebê, com um laço de fita no pescoço. A prima explicou que a tia havia decidido tirar o porquinho do chiqueiro e alimentá-lo. Minha prima então decidiu dar-lhe um banho e cuidar dele como se fosse um bebê. Parecia mesmo e ela passou a chamá-lo de Chiquinho. Num instante, Chiquinho se tornou o queridinho da molecada, a coqueluche, como se dizia na época, e as brigas entre nós começaram. Eu puxava o saco da prima para ela me deixar pegar o Chiquinho no colo um pouco e brincar com ele. Se não dava certo, saía briga e ficávamos de mal. Todo mundo passou a disputar o Chiquinho, que foi ficando mimado e muito levado. Entrava na casa e fazia cocô para todo lado. A tia foi ficando nervosa com nossas brigas e com o comportamento do Chiquinho. Começou a ameaçar tirá-lo de nós e devolvê-lo ao chiqueiro. Em pouco tempo, Chiquinho cresceu e já não parecia mais um bebê. Já não ficava quietinho no colo, queria o chão para correr e brincar. Chiquinho revelou-se um grande companheiro de brincadeiras. Seguia-nos para todo lado, mas de vez em quando fugia e ia se esconder na casa da tia. Entrava sem que ela o notasse e fazia cocô nos lugares mais inusitados, deixando a tia muito zangada. Suas diabruras acabaram irritando demais a tia, que mal tinha tempo para se coçar. Foi aí que a desgraça aconteceu.
Um dia, ao voltar da escola, encontrei a prima no portão, à minha espera, chorando. Aproximei-me assustada e ela me contou. A tia tirou-lhe o Chiquinho, que dormia com ela, durante a noite e o levou de volta ao chiqueiro. Ao acordar, ela perguntou pelo porquinho e a tia lhe disse a verdade. Ela foi correndo ao chiqueiro e não o viu lá. As duas voltaram ao chiqueiro e puseram-se a buscá-lo por todo lado e só então se deram conta que a própria mãe, talvez com a ajuda dos irmãos, o haviam comido durante a noite. Dele só sobraram os ossos num canto do chiqueiro. A prima chorava copiosamente e eu me juntei a ela. Aos poucos, os outros primos chegaram e todos choramos. A tia mal nos olhava, parecia envergonhada e abatida. Minha prima a culpava pela tragédia e aí, um dia, a tia resolveu acabar com o chiqueiro. Vendeu a porca e os porquinhos. Desistiu da ideia de criá-los para comer e nos disse a razão: “eu não poderia comer uma mãe tão desalmada”.
Depois de vender a porca e os porquinhos, a tia trabalhou a terra onde ficava o chiqueiro e fez uma horta ali. Durante algum tempo, nos emocionávamos quando olhávamos o local onde ficava o chiqueiro, mas aos poucos, como costuma acontecer com as crianças, fomos nos acostumando com a ausência do Chiquinho e eu até acho que meus primos podem ter se esquecido dele. Eu não. Era a segunda perda que eu sofria de um animalzinho querido. Pouco a pouco, fomos buscando outras formas de diversão – havia muitas - e a primeira delas foi voltar para os braços fartos e generosos do velho tamarindeiro, que desciam em ramas rendilhadas até o chão, como a convidar a abrigar-nos em seus galhos - nosso lugar preferido de jogos e brincadeiras. Hoje em dia, quando penso no velho tamarindeiro, sinto um nó na garganta e vontade de chorar, porque sei que pessoas insensíveis não o reverenciaram, não se renderam diante de sua majestade e o derrubaram, assim que a casa da tia foi vendida anos depois. Quanto ao Chiquinho, durante todos esses anos nunca o esqueci e é em nome dessa lembrança triste e nostálgica, grande companheira e formadora do meu caráter e sentimentos, que escrevi esta historieta.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

VIDA NA ROÇA – AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS – A REVELAÇÃO


“...o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum!” (Guimarães Rosa, Grandes Sertões Veredas, 1976)

O sol ia alto no céu. Pequenas nuvens brancas e esparsas, emolduravam o firmamento, algumas ainda cinzentas, lembrando a chuva da noite anterior. O calor àquela altura era abrasador me fazendo suar em bicas, mas eu não ousava arredar pé daquele canto onde me sentara com o palhaço para ouvir a revelação do mistério da fazenda.

E ele começou assim: o avô do seu Doquinha era um homem muito mau. “Mau mesmo, moça, de verdade.” Era o pior dono de escravos da região e muitos deles morreram dos maus tratos sofridos. Conta-se que os que sobreviveram rogaram-lhe uma praga. Seu Juvelino, como se chamava, era homem sem fé e não se importava com pragas. Também não gostava da Folia de Reis e nunca quis receber o grupo em sua casa. Dizem que à praga somou-se a maldição pelo desprezo que tinha pelas pessoas e pela descrença em Deus. “A rezadeira, Maria Iná, foi quem espalhou a história pela região”, explicou Joca. A falecida Maria Iná contou que uma vez, ao se aproximar da fazenda, a bandeira que o alferes levava à frente do grupo, caiu-lhe das mãos e manchou-se de sangue. Seu Juvelino, postado no portão que levava à varanda, impediu a entrada da Folia de Reis. Desde então, de acordo com Maria Iná, presente durante o acontecimento, caiu uma maldição sobre a fazenda. Pouco tempo depois, seu Juvelino morreu de doença misteriosa e o povo da região acredita que é seu fantasma que zanza pela casa à noite. Joca interrompeu a narrativa e me perguntou se eu tinha alguma vez escutado passos pela casa durante a noite. Respondi que sim, a essa altura morta de medo. Filhos e netos também foram amaldiçoados, segundo Maria Iná, e a maldição chegou ao seu Doquinha, cujos olhos adquiriam o aspecto amedrontador de animal selvagem quando se aproximava o dia dos festejos da Folia de Reis. Perguntei se a maldição também atingira Vitória e Ledinha. Ele afirmou que também se comentava na região que as meninas adquiriram o hábito de roubar. E quem era o palhaço que vi na Folia de Reis de ontem, que tinha os mesmos olhos do seu Doquinha, era ele?”, perguntei. “Sim”, respondeu. “Por quê?”, quis saber e Joca me disse que era a sina dele e aí me contou outra história. 

“Os palhaços” – explicou – são o diabo que, a mando do rei Herodes e seus soldados, teriam saído em perseguição ao Menino Jesus, para matá-lo. Eles são profanos, moça, simbolizam a coisa ruim, por isso eles não devem entrar em igrejas, eles não levantam a sagrada bandeira e não podem ficar sozinho no final da folia, senão o diabo os carrega.“ São, enfim, personagens sempre cercados de obrigações, como a de recolher dinheiro para ajudar a Folia de Reis, regras e restrições. Eles devem permanecer do lado de fora das casas dos devotos até o momento de sua apresentação. Dizem que é perigoso tocar na sua roupa ou na máscara. “Os palhaços precisam do sagrado da Folia de Reis para se purificar e pagar os pecados dos seus antepassados.” O que os palhaços fazem na festividade é pedir perdão pela perseguição ao Menino Jesus. Eles são os soldados de Herodes que se arrependeram quando viram o Menino Jesus e usam as máscaras para que o próprio Herodes não os reconheça e os acuse de traição.

“Mas na fazenda disseram que seu Doquinha estava em Macuco, por que mentiram pra mim?” E Joca respondeu que todos sabiam que era seu Doquinha quem estava por trás da máscara, mas ninguém dizia nada porque tinham vergonha de sua condenação. Quis saber ainda por que fora Dona Nadir quem beijou a bandeira se seu Doquinha estava na Folia de Reis. “Porque só ela podia fazer isso, porque vem de uma família de gente religiosa, que respeita e venera a Folia de Reis” – respondeu.
Faltava perguntar por que a filha da Dona Geny era uma menina tão estranha e apática. E Joca me contou que ela dormira certa vez na fazenda, para atender a mãe de Dona Nadir, que estava enferma e, ao escutar passos no corredor, abriu a porta para ver quem era. Ficou cara a cara com o fantasma do seu Juvelino. “Todo mundo na região sabe disso, moça.” Desde então a menina passou a sofrer terrores noturnos e ficara assim, como disse Joca, “doente dos nervos”.


Curiosidade satisfeita, quis saber se algum dia a maldição teria fim. Joca me disse que seu Doquinha ainda teria de ser o palhaço da Folia de Reis por um longo tempo. “Foi maldade demais do seu Juvelino, moça. Tem muito pecado pra pagar.” Pode ser que ele um dia chegue a ser o alferes da bandeira, também chamada de "Doutrina", o elemento sagrado da festa, beijada respeitosamente pelos moradores das casas visitadas. Nela está colada uma estampa dos Três Reis Magos. “Mas acho que ainda levará anos até que a maldição seja apagada e os pecados do seu Juvelino perdoados.” Quando chegar esse dia, haverá a redenção do seu Doquinha e a quebra da maldição que atingiu Vitória e Ledinha.

sábado, 2 de dezembro de 2017

VIDA NA ROÇA – AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS –IV


Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo. (Mark Twain)

Desviei o olhar do palhaço, procurei por todos os cantos a tia Maria e não a vi. Tentei ver se Vitória e Ledinha estavam perto, em vão. Meu coração batia acelerado, minhas pernas pesavam como chumbo, para onde olhava, não havia nenhum rosto conhecido. Chovera no dia anterior e o dia estava nublado e fresco, mas eu suava muito e minhas mãos estavam úmidas. Consegui chegar perto dos músicos para prestar atenção no que cantavam:

“Senhor e dono da casa, vai chegando a folia
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria ai ai ai!


Tentei concentrar-me na música, mas meu desejo íntimo era fugir dali. Finalmente, os foliões começaram a entrar pela varanda e eu os segui, enquanto o palhaço ficava para trás, rodeado das crianças da fazenda, que tentavam imitá-lo. Com esforço, consegui entrar na casa abrindo caminho penosamente. Havia muita gente, os peões e suas famílias vieram em massa. Finalmente consegui chegar no quarto onde dormia com a tia Maria. Fiquei lá, tentando recuperar a calma, mas minha cabeça girava.

Voltei à sala pouco depois e lá estavam Vitória, Ledinha e tia Maria. Respirei aliviada. A mesa estava posta com as gostosuras preparadas pela Dona Geny, que ia e voltava da cozinha, trazendo seus quitutes para servir primeiro o grupo da folia de reis: o mestre, o contramestre, os três reis magos, os palhaços, os alfeires e os foliões. Dona Nadir seguiu o ritual e beijou a bandeira, mas seu Doquinha, o anfitrião, havia sumido. Perguntei a Vitória onde ele estava e ela me respondeu que havia ido à Macuco para fazer uma transação de gado. 


Àquela hora eu costumava estar faminta, mas o medo embrulhou-me o estômago. Não consegui comer nada. Fiquei ali na sala, controlando o palhaço com o olhar e esperei até Dona Geny trazer o último prato. Voltei com ela para a cozinha. Ela me olhou curiosa, pensando que eu queria algum doce, mas ao ver meu olhar aflito perguntou-me o que havia acontecido. Não sabia o que dizer ou se devia dizer e então perguntei pela Lela. Notei uma sombra em seu olhar e ela respondeu que a filha ficara em casa cuidando dos irmãos mais novos. Achei estranho, porque os filhos da Dona Geny estavam no quintal brincando com o palhaço, menos a Lela. Por que Dona Geny mentiria para mim? Confusa, pedi licença e voltei para a sala. 


Aquela era a primeira vez que via uma Folia de Reis e os cânticos, a festa, a música entraram na minha alma para sempre. Gostava do ritual, das fantasias, só o palhaço me dava medo. “O que estraga a felicidade é o medo,” dizia Clarice Lispector e era verdade. Decidi que precisava conversar com alguém. Chamei tia Maria num canto e lhe perguntei se o palhaço era seu Doquinha. Ela perguntou-me em voz baixa, olhando para o lado oposto do grupo da folia de reis, se eu ficara com medo do palhaço. Respondi-lhe que sim e ela então me disse, mal disfarçando o sorriso, que depois conversaria comigo. 


Abastecidos da comida deliciosa da Dona Geny, chegou a vez da criançada se fartar também. Eles se aproximaram numa grande algazarra, tropeçando uns nos outros, como fazem os pombos quando se lhes oferece milho. O grupo da folia de reis, pegou seus instrumentos, violas, reco-reco, tambores, acordeões, sanfonas, pandeiros e gaitas e se despediu com reverências, cantando:


Senhor e dono da casa, a folia vai saindo
Fica com Deus nosso pai e a proteção do divino
Fica com Deus nosso pai e a proteção do divino ai ai ai!”


À noite, quando fomos dormir, quis saber do palhaço, mas tia Maria alegou cansaço e dor de cabeça, virou-se para o outro lado e dormiu. Disse-me “amanhã te conto”. Aquilo me deixou mais ansiosa e custei a dormir. Lá pelas tantas, ouvi passos no corredor. Alguém zanzava de um lado para o outro. Pé ante pé, fui até a porta, tentei abri-la devagarinho, mas a porta rangeu. Assustada, voltei correndo para a cama e me agarrei à tia Maria, que quase acordou. Os passos cessaram. Meu coração foi se acalmando pouco a pouco e adormeci. Tive um sono turbulento e cheio de pesadelos. Antes de adormecer, porém, prometi a mim mesma que tiraria aquela história a limpo no dia seguinte.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

VIDA NA ROÇA – AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS – III

Os dias que antecederam a Folia de Reis foram de muito rebuliço na fazenda. Dona Geny, a cozinheira que vivia de cara emburrada, trouxe uma assistente, sua filha Lela, uma menina magra, de cabelos desgrenhados e roupas muito velhas e encardidas. Enquanto brincávamos no quintal, Lela nos olhava com ar triste e distraído e sua mãe vivia ralhando com ela. Devia ter a nossa idade, entre 13 e 15 anos, mas era mais baixa e menos desenvolvida. Passados tantos anos ainda consigo ver perfeitamente as duas. Dona Geny era mulata, magra e movia-se com dificuldade. Com o tempo, percebi que uma de suas pernas era mais curta que a outra. Era baixinha, excelente cozinheira e, apesar do ar carrancudo, sempre sorria para mim quando, não podendo resistir ao cheiro da comida que se espalhava pela casa, aproxima-me do fogão e lhe pedia para provar um quitute. Ela o dava de bom grado, ao contrário da minha mãe que não admitia que eu comesse nada antes das refeições – o que me deixava sempre muito contrariada. Ameaçava não comer mais nada, mas minha mãe não se importava. Sabia que era chantagem. Dona Nadir, mãe de Vitória e Ledinha, não se atrevia a se meter na cozinha – aquela era a seara da Dona Geny e era ela quem decidia o que íamos comer a cada dia. E era tudo sempre muito delicioso. Se fechar meus olhos agora, acho que ainda posso sentir o gosto da comida dela.

Nos dias que antecederam a Folia de Reis, Dona Geny andava de um lado para o outro, atarefadíssima, preparando quitutes para receber os foliões. Mal pude acreditar quando a vi fazendo olho de sogra, meu doce preferido. Fez um prato enorme e o deixou na cristaleira, à mercê da minha gula, e eu ia sorrateiramente até a sala, me certificava de que não havia ninguém e comia um doce. Mais tarde, voltava e comia outro, e ficava assim o dia inteiro - uma compulsão. E eu tinha de ajeitar os doces na bandeja para não deixar buracos. Ou será que Dona Geny os preenchia, ciente que devia estar da minha gulodice? 


Vitória andava lá pras bandas de Macuco provando o vestido de 15 anos na costureira. Não me levou, porque queria que fosse surpresa. Só voltei a Macuco uma vez, quando foram comprar o tecido. Nunca tinha visto nada tão bonito e eu certamente faria feio com meu antigo vestido de nylon, fora de moda, que minha mãe mandara fazer para o casamento do meu tio, três anos atrás. Já estava meio apertado, principalmente a blusa, que achatava meus seios. Quando o vesti pela primeira vez, achei-o bonito, até que começou a me picar e a me dar alergia. Mas era o único vestido de festa que eu tinha.
Vitória voltou de Macuco e voltamos às cavalgadas matinais e aos banhos de rio, até que um dia, ao voltarmos para a fazenda, vimos à distância um grupo se aproximando da casa e Vitória anunciou: “Vamos depressa que está chegando a Folia de Reis.” 


Chegamos pouco depois dos foliões, que pararam na entrada da varanda da casa. Gilberto, irmão mais novo de Vitória e Ledinha, gritava com a voz dos seus 4 aninhos: “E toca, sanfoneiro!”. E o sanfoneiro tocava: tararatantan-tantan-tantan, uma melodia que nunca esqueci, enquanto o palhaço dançava e fazia malabarismos. Ele usava uma máscara e só se lhe viam os olhos. Um arrepio de medo percorreu meu corpo. O palhaço tinha os mesmos olhos famintos e selvagens, os mesmos olhos de predador do seu Doquinha, pai de Vitória e Ledinha.

sábado, 25 de novembro de 2017

VIDA NA ROÇA – AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS – II

Vitória ia fazer 15 anos e minha mãe deixou que eu acompanhasse a tia Maria para a festança na fazenda. Eu ia ficar uns dias fora de casa e aquela era a primeira vez para mim, que sonhava conhecer o mundo. Acompanhei a tia da Vitória numa longa e inesquecível viagem, que me fez sentir o sabor, o cheiro, a cor e o som da liberdade. Estaria longe das garras sempre tão seguras da minha mãe, como na música do Ivan Lins. A sensação de liberdade que senti naquela viagem me acompanharia pelo resto da vida, fazendo-me lutar por ela - nenhuma garra, nenhum obstáculo, ninguém tiraria isso de mim...”abra as asas sobre mim, ó Senhora Liberdade...” Nova Friburgo, Bom Jardim, Cordeiro, desfilavam diante dos meus olhos ávidos e deslumbrados até chegarmos finalmente a Macuco, na época um vilarejo. 

De Macuco até a fazenda em São Sebastião do Alto era outro estirão, cheio de sacolejos. No caminho, só mato, árvores e muito boi. Chegamos à fazenda já quase noite, com os lampiões acesos. No dia seguinte, às 5 da manhã, me acordaram. Já era tarde para eles, os peões estavam desde cedo no campo. Ensinaram-me a levar a caneca até o estábulo e pegar o leite quentinho da vaca. Na casa, a lenha no fogão assava o bolo de milho. Depois do café, pegávamos os cavalos, saíamos pelos campos rodeados de montanhas aveludadas e tomávamos banho de rio. Rapidamente aprendi a montar e a cavalgar. Voltávamos às 9, quando serviam o almoço e às 4 da tarde, depois do jantar, ficávamos conversando na varanda até anoitecer, quando tínhamos de nos recolher aos nossos quartos. 

Acostumada a dormir mais tarde, custava a pegar no sono. E foi então que comecei a ver coisas estranhas acontecendo. O pai da Vitória e Ledinha zanzava pela casa, quando todos dormiam, qual alma penada. Para onde ia aquele homem? No dia seguinte, a mesma cena se repetia. Passei a ter medo dele, daquele olhar faminto e selvagem, olhos de predador. Pulava para a cama da tia Maria e me grudava nela, colocava objetos atrás da porta e meu sono, sempre tão pesado, tornou-se leve. Já não era mais divertido. Tinha sono durante o dia, por causa da vigília noturna e do medo, muito medo. Evitava aquele homem, fugia dele. Não sei se tia Maria percebeu alguma coisa. Um dia me chamou para ir à Euclidelândia, onde morava a outra irmã. Cavalgamos o dia inteiro e chegamos à noite. Não sei quantos dias ficamos nessa outra fazenda. Só voltamos a São Sebastião do Alto uns dois dias antes da festa luxuosa dos 15 anos de Vitória. Pouco depois, viajamos de volta ao Rio.

Ao chegar, me sentia estranha, não entendia a confusão que tinha se instalado na minha cabeça. Talvez, segundo Bernard Shaw, a ansiedade e o medo tenham envenenado meu corpo e meu espírito. Minha intuição dizia que todas as famílias têm baús repletos de segredos e ai daquele que ousasse revelar um só deles. Resolvi esquecer, apagar tudo da memória. Algo em mim, porém, mudou para sempre e minha amizade com Vitória e Ledinha esfriou. A alegria e a emoção dos nossos reencontros já não existiam mais e elas também não eram mais as mesmas. Aos poucos, fomos nos distanciando e um dia minha família mudou para outro bairro. Nunca mais as vi.


Só agora, quando releio as cartas de Vitória e Ledinha, me voltam as lembranças adormecidas daquele tempo, relembro os sentimentos confusos e o desassossego. Só agora consigo juntar as peças e concluir o quebra-cabeça.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

VIDA NA ROÇA - AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS

Quando fiz a limpeza no quartinho da bagunça, queria mesmo era encontrar a caixa grande, onde guardei, durante tantos anos, todas as cartas, bilhetes de antigos namorados, cartões de Natal, de aniversário, cartas e cartões das minhas filhas. Sim, sou uma pessoa sentimental a ponto de nunca ter jogado fora nenhuma correspondência recebida.

Abri a caixa, organizei aquela pilha confusa, separando-a pelos remetentes. Fiquei surpresa de encontrar as cartas de Vitória e Ledinha, duas amigas da adolescência, que tanto amávamos. A avó delas era nossa vizinha, uma senhora que aparentava ter uns 200 anos, tamanha era a quantidade de rugas naquele rosto marcado pelo tempo e a vida dura da roça. Até hoje, nunca vi rosto tão enrugado. 


Vitoria e Ledinha moravam numa fazenda em Macuco e passavam as férias na casa da avó e seus quatro tios. Quando elas chegavam, mal baixavam as malas, iam correndo lá pra casa e aí nos abraçávamos, rindo e chorando de pura alegria e saudade. Puxa, aquilo sim era felicidade! Depois, íamos para o quarto da minha mãe e lá nos sentávamos na beira da cama para conversar. Era uma estratégia, porque Vitória era engraçadíssima, conhecia todo mundo e sabia contar mil histórias. Era a nossa Sheherazade. Contava histórias como a de uma vez em que a mãe dela pegou um cinto para dar umas cintadas na Ledinha. O pai agarrou a outra ponta do cinto e ficaram os dois discutindo aos berros, cada um puxando para um lado. Vitória foi lá na gaveta, tirou uma super tesoura e cortou o cinto ao meio, deixando cada um com um cotoco. Era numa hora dessas que nos deitávamos na cama da mamãe para rir até não poder mais, imaginando a cena cômica. Vitória também era muito namoradeira. Na viagem de Macuco ao Rio, ela sempre conhecia algum rapaz e o namorava; na volta para Macuco, conhecia outro e namorava também. Certa vez, comentou: “Não fico de mal com nenhum ex-namorado.” E Ledinha contestou rapidamente: “Se você ficasse de mal, não falaria com rapaz nenhum em Macuco.” Mais outras gargalhadas na cama da mamãe.


Mas toda luz tem sua sombra, como descobriram os Renascentistas com o “Chiaroscuro”, uma revolução que mudou a pintura chapada da Idade Média. Vitória e Leda roubavam, eram cleptomaníacas. Quando chegavam assim de surpresa, ao saírem fazíamos um inventário das coisas que tinham levado: um grampinho ou um arco de cabelo, uma escova mal-ajambrada, uma blusa surrada... nada de valor e não entendíamos o porquê. Simplesmente íamos sorrateiramente na casa da avó delas e pegávamos tudo de volta. E tínhamos de deixar tudo trancado, escondido, para que não roubassem de novo. Nossa amizade transcendia qualquer deslize, qualquer fraqueza moral. Era o que de melhor tínhamos e não queríamos nunca perder. 


Hoje em dia, acho que sei o que as faziam ter esse desvio de conduta, mas contarei no próximo post, porque este está grande demais.

sábado, 11 de novembro de 2017

NÃO É COMIGO, QUE SE DANE

Infelizmente, muita gente pensa apenas em si e, no egoísmo e burrice, acabam se dando mal.
Vi um vídeo em que a senadora Gleisi Hoffmann defende indignada e bravamente os trabalhadores e acusa o congresso de insensibilidade com o povo, comparando os altos salários e benefícios dos congressistas com o salário do trabalhador. Depois da pungente denúncia da senadora, o amaldiçoado e desprezível senador Magno Malta vai à tribuna e defende com unhas e dentes a reforma trabalhista, atacando violentamente a senadora. Acredite se quiser, milhares apoiaram o senador e chamaram Gleisi e tudo que se possa imaginar - claro que a misoginia prevaleceu.
Não sou melhor do que ninguém, exceto talvez que não tenho preguiça de usar meu cérebro. E minhas reflexões sobre o momento atual me diz que a Previdência, tal como a conhecemos atualmente, vai acabar. Milhões de aposentados e pensionistas poderão se dar por satisfeitos se conseguirem receber aposentadorias e pensões futuramente. Para ser mais incisiva, esse filme que estamos vendo no Rio de Janeiro, em que milhares de trabalhadores não recebem salários há meses, deverá ter um "sequel" que atingirá milhões idosos. 
A reforma trabalhista desobriga o patrão de contribuir para a previdência, ou seja, o patrão paga diretamente todos os direitos aos empregados, e esses, como vão ganhar muito menos do que estão habituados e de que precisam para sobreviver, vão usar esse dinheiro para cobrir o rombo financeiro que a mudança provocará em suas vidas, deixando, assim, de contribuir para a Previdência. Em outras palavras, o governo está transferindo para o trabalhador seu rombo financeiro causado pelas pautas bombas ainda na gestão de Dilma Rousseff, pelo famigerado Eduardo Cunha, e que muitos descerebrados atribuem a "gastos exorbitantes e roubos do PT", e ainda os bilhões gastos pelo vampirão para comprar deputados e senadores para se manter no poder.
O ódio insano e irracional ao PT, que vitimou os pobres e a classe mérdia, incensados pela mídia nojenta e pérfida, vai custar muitas lágrimas de sangue, muita violência e muita miséria. Foram em vão nossos alertas de que esse caos se instalaria depois do golpe, mas de nada adiantaram. Agora, rezem para que os nazistas e fanáticos religiosos ou o candidato apoiado pela mídia encabeçada pela Globo não assumam o poder, porque aí sim vocês verão um grande país destruído. O Brasil sofrerá um forte atraso e retrocesso durante muitos anos, causados pela incompetência, ignorância e insensibilidade dessas pessoas. Temo que ainda não tenhamos chegado ao fundo do poço. Receio que o buraco seja ainda mais embaixo.
O tempo dirá.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

UM NATAL CHEIO DE TRAUMAS

Atenção: o assunto que vou abordar é espinhoso e triste. Não leia se não estiver preparada (o).

Conheço duas mulheres vítimas de abuso sexual. E os dois casos aconteceram em família, corroborando a pesquisa do Ipea: "70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência, muitas vezes, ocorre dentro dos lares." É o caso da amiga que chamarei de "O". Convidada por ela, certa vez, viajei com minhas filhas para passarmos o Natal juntas. "O" tem muitos irmãos e uma família enorme. Tudo corria bem no clima natalino até a chegada de um dos cunhados de "O". Eu não sabia da história, mas foi impossível não perceber a transformação por que passou minha amiga. De alegre e descontraída, ficou nervosa e seus olhos cintilavam de ódio e medo. Ficou transtornada. E foi então que eu soube, depois da festa, que o cunhado havia abusado dela, quando criança. Contou-me em poucas palavras, com o olhar distante e triste, e interrompeu o relato abruptamente. Meu coração sangrou por ela. 


O segundo caso, mais grave, também aconteceu no Natal. Uma amiga, que chamarei "P", me convidou e lá fui eu com minhas meninas. Fizemos juntas a ceia e montamos a mesa. Estávamos na sobremesa quando a campainha tocou. Nervosa, "P" deu um salto da cadeira e foi abrir a porta, hesitante e de ombros baixos. Eram os pais dela. Notei o pavor, o terror, o medo descontrolado resvalando para a quase loucura nos olhos dela. Foi aí que o Natal desandou, sentia-se o clima pesado no ar, até que finalmente os pais foram embora. Foram lá desejar um "feliz Natal" à filha e à neta. Era chegada a hora de voltar para minha casa, mas antes de sair, minha amiga me contou ter sofrido abuso sexual do pai desde a infância, com a total indiferença da mãe, para meu horror e incredulidade. Naquele tempo, eu ainda tinha muita fé nas pessoas. A história da amiga também corrobora a pesquisa do Ipea: "24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima."


Por isso, Natal para mim é um dia muito triste, porque posso imaginar os milhões de meninas e meninos e dos adultos, que sofrem até hoje porque tiveram suas infâncias roubadas e seus corpos violados numa data em que, ironicamente, se comemora, no mundo inteiro, o nascimento de uma criança - o menino Jesus.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

VIDA NA ROÇA (publicado em 6 de novembro de 2014)


Vejo, diariamente, o jornal do meio dia RJTV Serramar. É muito fraquinho, gente. De dar dó. É bem verdade que pouca coisa acontece na região, que abrange as cidades serranas e se estende ao litoral, indo até Campos e São João da Barra. É certo que a violência tem crescido em alguns lugares, especialmente em Macaé, Cabo Frio e Campos, mas fora isso não há muito o que noticiar. 

Mas eu queria mesmo é falar dos apresentadores: são muito fraquinhos e provincianos. O jornal parece aqueles ensaios que as faculdades de comunicação fazem em seus laboratórios de mídia.
Um dia desses, o RJTV do Rio fez uma chamada dentro do Serramar. Era a Sandra Annenberg. Confesso a vocês que a minha admiração pela jornalista caiu muito. Em geral, os jornalistas se cumprimentam e foi o que fez a moça do Serramar, mas a Annenberg esnobou e foi direto ao assunto. Dias depois, foi a vez do Evaristo e o mesmo aconteceu.


Me fez lembrar o prédio onde morei no Rio. Alguns que moram no bloco de 3 quartos esnobam os moradores do bloco de 2 quartos. É hilário.
O ser humano não tem jeito mesmo...

O CLIMA DO ANO

Há tempos venho notando que a natureza absorve nossos humores, mas isso é assunto pra outro post. Lembro que, em 2016, meu pé de amora fic...