quarta-feira, 29 de agosto de 2018

VIDA NA ROÇA - CAPRICHOS DA NATUREZA

Olhei da varanda para o jardim e notei que os tomates já estavam amadurecidos. Pois é, deu o maior tomateiro no jardim, perto da buganvílea, e já colhi uns dois quilos de tomate de lá - saborosíssimos e o melhor: totalmente orgânicos. No vaso de planta perto, tem um pé de tomatinho cereja e eu vou lá de vez em quando colher. Hum, deliciosos! Hoje mesmo comi dois, mas vem mais aí. Depois de colher os tomates, fui ao canteiro das roseiras colher....espinafre. A gente já tentou dar um indireta para o espinafre, que seu lugar é na horta, mas ele não faz caso. Não quer "espinafrar" na horta e é um direito seu. Todo ano, nasce de montão ao lado das roseiras. E não arreda pé. Fui lá e colhi uma ramada bem verdinha e exuberante. Vou fazer creme de espinafre...yummy, yummy. Planta aqui em casa nasce onde quer. Tô nem aí.
E hoje cedo fui ao quintal colher framboesas. É a estação delas. E aí notei que logo, logo vou ter amoras. O pé de jaboticaba está todo florido, assim como o pessegueiro. Mal posso esperar setembro chegar.

sábado, 18 de agosto de 2018

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE CHIQUINHO E SUA MÃE DESALMADA

Hoje acordei pensando no Chiquinho e no seu destino cruel, não sei se pela turbulência do momento, devido à crise que atravessamos, ou pelas maldades que vejo publicadas nas redes sociais. Chiquinho coloriu nossas vidas de criança e foi muito amado. Quis o destino, porém, que tivesse uma mãe desalmada. Mas antes falarei das condições e circunstâncias de tão malfadada sorte.
Nasci, me criei, passei minha adolescência e grande parte da minha vida adulta num subúrbio carioca. Éramos os chamados roceiros. Do centro da cidade “para trás”, ou seja, para a zona norte da cidade, não existíamos ou éramos ridicularizados pelos “granfinos” da zona sul, porque vivíamos praticamente no campo, em pequenas chácaras. Nossas casas eram “simples com cadeiras nas calçadas e na fachada escrita em cima que era um lar”, como na música de Garoto. Não faz muito tempo, li um artigo do Carlos Saldanha que, para quem não conhece, é um famoso diretor de cinema e produtor de filmes de animação como “Rio”, “A era do gelo”, etc. Pois bem, Saldanha nasceu em Marechal Hermes e ele conta como foi morar num subúrbio da zona norte num interessante artigo publicado na revista Época (quem se interessar, procure no Google). A cidade partida, da qual fala Zuenir Ventura em seu livro, sempre existiu, assim como sempre houve hostilidade do pessoal da zona sul contra a zona norte, mas naquele tempo tudo se resumia apenas à zombaria, e me parece que vigora até hoje, porque a estupidez humana é infinita. Foi meu avô, um abastado comerciante português, quem comprou uma chácara e levou a família, no início do século passado, para a zona norte. Foi lá que minha mãe e meus tios, eu, meus irmãos e meus primos todos nascemos. Foi lá que “crescemos e nos multiplicamos”.
Nossos vizinhos vinham de várias partes do país e do mundo, meu vizinho de baixo era mineiro e ele gostava de botar na vitrola uma música que dizia assim “quem pensar que o mineiro é bobo, vai cair na boca do lobo”. Seu Ítalo, como o chamávamos, foi o primeiro a comprar um aparelho de TV. À noite, ele abria a porta da sala e deixava-nos ver os programas, do lado de fora do portão, onde nos aglomerávamos diante daquela maravilha. Aos domingos, a entrada era franqueada à garotada para vermos o teatrinho Troll, com a princesa Norma Blum, e seu Ítalo generosamente nos oferecia frutas. Era o vizinho mais rico da rua, mas muito ciumento. Não deixava a mulher dele, uma senhora que passou a se vestir de negro depois que seu pai, com quem eu gostava muito de conversar, morreu numa manhã, e eu soube quando voltei da escola. Naquele tempo, velava-se o defunto nas casas, que se enchiam de vizinhos. Dona Edith, mulher do seu Ítalo, não ia à rua nunca, exceto em alguns passeios no Studebaker reluzente do marido. Por isso, era eu quem fazia as compras para ela todo dia. Dona Edith me dava uma listinha e, na entrega das compras, um trocadinho, que eu adorava, porque com aquele dinheiro podia comprar as figurinhas do álbum de cinema ou uma lata de leite condensado, que eu bebia devagarinho, às escondidas dos meus irmãos. O vizinho de cima era do interior do estado do Rio de Janeiro, eram os parentes da Vitória e Ledinha. Na casa deles tinha um pé de cajá, fruta que me enche a boca de água só de lembrar, um cajueiro e um pé de abiu, fruta em formato de amêndoa que nós pegávamos do pé quando estava bem amarelinha e nos deixava uma cola nos lábios, motivo de muitas brincadeiras. Mais adiante, subindo a rua, havia alemães e eu frequentava a casa dos Ballreich, originários de Essen, na Alemanha. Foi por causa deles que conheci a culinária e os costumes do país e também comecei a aprender alemão, língua que afinal não segui estudando, porque o inglês era mais legal e eu precisava dele para cantar as músicas que tocavam no rádio. “One, two, three, four rock around the clock, five, six, seven...” E enquanto aprendia inglês, eu cantava a música que mais fazia sucesso na época, “Jambalaya”. Eu imitava perfeitamente a Brenda Lee. Quando cantei a primeira vez no pátio da escola, a garotada ficou doida. As meninas passaram a me olhar com melhores olhos e os meninos com mais interesse. Mas graças a Brenda Lee descobri, ainda muito criança, que não fora feita para o estrelato. Era um saco ter de cantar toda hora “Jambalaya a-crawfish pie, a-file gumbo, ‘cause tonight I’m gonna see my ma cher amio...” Havia poloneses - como minha amiga Jeannette Iablonski, que se mataria anos depois, ateando fogo às vestes, por causa de um amor não correspondido - e italianos. Ainda me lembro dos rapazes italianos mais legais, Sergio, Domenico e Vincenzo, que me levavam a passear de Vespa pelo bairro, sem o conhecimento da minha mãe, claro, pois ela me mataria se soubesse. E tinha minhas amigas italianas, como a Mirella e a Brunella, de quem sou amiga até hoje. As músicas italianas faziam sucesso nas rádios, como “Datemi un martello”, da Rita Pavone, a romântica “Io che amo solo te”, do Sergio Endrigo e "Il Mondo". “Il mondo soltanto adesso io ti guardo, nel tuo silenzio io mi perdo e sono niente accanto a te...”O armazém, onde minha mãe fazia as compras do mês, era de um português, seu Belmiro, um senhor baixo e gordo, que gostava de agradar a freguesia. Quando minha mãe lhe pedia para fazer desconto, ele rapidamente consentia e na hora de somar, o que ele fazia de cabeça, dizia assim: “mais 7, mais, 2, mais 4... e lá vai 8, mas pra senhora vai 7”. No bairro ao lado, viviam algumas famílias espanholas, como os Ponce de Leon. Esse era meu universo e nele estava a casa da minha tia, uma pequena chácara, para onde íamos todos os dias, depois dos afazeres escolares, para brincar com os primos.

 A tia criava galinhas e aí um belo dia teve a ideia de criar porcos também. Não sei como começou, só me lembro que no chiqueiro que ela mandou construir havia uma porca enorme, barriguda e que daquela barriga saiu um monte de porquinhos, todos lindos e rosados, que nós quisemos logo pegar para brincar. Mas não, a tia não deixou, porque ela os alimentaria e os deixaria crescer para depois matá-los e comer a carne deles. Estávamos longe de imaginar os planos tenebrosos da tia e sempre que chegávamos a casa dela íamos correndo ver os porquinhos mamar. Nossa atenção passou a se concentrar num deles, o menor de todos, que nunca conseguia uma teta e ficava jogado num canto, emagrecendo a olhos vistos. Apontamos o porquinho para a tia e ela passou a prestar atenção.
Naquela época, poucas crianças tinham animais de estimação. Minha mãe dizia que já tinha trabalho demais para cuidar de quatro filhos. Quando estava para se casar, meu tio ganhou de presente um cachorrinho e pediu minha mãe para cuidar dele. Eu me apaixonei pelo cãozinho e aquela foi a primeira vez que tive em casa um animal de estimação, mas foi por pouco tempo. Certa vez, quando ia para a escola e já estava quase chegando, olhei para trás e, para minha surpresa, o cãozinho havia me acompanhado. Parei sem saber o que fazer. E aí me ocorreu uma ideia. Toquei a campainha de uma casa, a senhora veio atender o portão e eu lhe expliquei o que acontecera. Ela me olhou com ternura e disse que fosse tranquila para a escola. Ela cuidaria dele para mim. Ao voltar, parei na casa para pegá-lo e a senhora me contou que uma outra pessoa havia estado lá perguntando por ele. Quis levá-lo, mas ela não deixou, pois havia prometido que só o entregaria a mim. Foi a única experiência que tive com um pet até então, mas estava prestes a ter outra, muito mais intensa.
Um dia, quando voltava da escola, vi minha prima empurrando um carrinho de bebê. Aproximei-me, pensando tratar-se de uma nova boneca, pois ela as tinha aos montes, cada uma mais linda que a outra, mas todas ficavam guardadas em suas caixas originais num armário, pois eram de louça e a tia tinha medo que minha prima as quebrasse. Nunca vi minha prima brincar com elas. Uma vez, a tia quis nos mostrar a mais nova boneca que minha prima ganhara no Natal e, ao pegá-la, ela escorregou da caixa e caiu, espatifando-se no chão, para horror de todos nós. Minha tia ficou em estado de choque, porque era uma boneca caríssima e eu fiquei muda, estática, sinceramente de coração partido. Mas o que estava no carrinho de bebê que a prima empurrava não era uma boneca - era um porquinho e ele estava todo perfumado e vestido tal qual um bebê, com um laço de fita no pescoço. A prima explicou que a tia havia decidido tirar o porquinho do chiqueiro e alimentá-lo. Minha prima então decidiu dar-lhe um banho e cuidar dele como se fosse um bebê. Parecia mesmo e ela passou a chamá-lo de Chiquinho. Num instante, Chiquinho se tornou o queridinho da molecada, a coqueluche, como se dizia na época, e as brigas entre nós começaram. Eu puxava o saco da prima para ela me deixar pegar o Chiquinho no colo um pouco e brincar com ele. Se não dava certo, saía briga e ficávamos de mal. Todo mundo passou a disputar o Chiquinho, que foi ficando mimado e muito levado. Entrava na casa e fazia cocô para todo lado. A tia foi ficando nervosa com nossas brigas e com o comportamento do Chiquinho. Começou a ameaçar tirá-lo de nós e devolvê-lo ao chiqueiro. Em pouco tempo, Chiquinho cresceu e já não parecia mais um bebê. Já não ficava quietinho no colo, queria o chão para correr e brincar. Chiquinho revelou-se um grande companheiro de brincadeiras. Seguia-nos para todo lado, mas de vez em quando fugia e ia se esconder na casa da tia. Entrava sem que ela o notasse e fazia cocô nos lugares mais inusitados, deixando a tia muito zangada. Suas diabruras acabaram irritando demais a tia, que mal tinha tempo para se coçar. Foi aí que a desgraça aconteceu.
Um dia, ao voltar da escola, encontrei a prima no portão, à minha espera, chorando. Aproximei-me assustada e ela me contou. A tia tirou-lhe o Chiquinho, que dormia com ela, durante a noite e o levou de volta ao chiqueiro. Ao acordar, ela perguntou pelo porquinho e a tia lhe disse a verdade. Ela foi correndo ao chiqueiro e não o viu lá. As duas voltaram ao chiqueiro e puseram-se a buscá-lo por todo lado e só então se deram conta que a própria mãe, talvez com a ajuda dos irmãos, o haviam comido durante a noite. Dele só sobraram os ossos num canto do chiqueiro. A prima chorava copiosamente e eu me juntei a ela. Aos poucos, os outros primos chegaram e todos choramos. A tia mal nos olhava, parecia envergonhada e abatida. Minha prima a culpava pela tragédia e aí, um dia, a tia resolveu acabar com o chiqueiro. Vendeu a porca e os porquinhos. Desistiu da ideia de criá-los para comer e nos disse a razão: “eu não poderia comer uma mãe tão desalmada”.
Depois de vender a porca e os porquinhos, a tia trabalhou a terra onde ficava o chiqueiro e fez uma horta ali. Durante algum tempo, nos emocionávamos quando olhávamos o local onde ficava o chiqueiro, mas aos poucos, como costuma acontecer com as crianças, fomos nos acostumando com a ausência do Chiquinho e eu até acho que meus primos podem ter se esquecido dele. Eu não. Era a segunda perda que eu sofria de um animalzinho querido. Pouco a pouco, fomos buscando outras formas de diversão – havia muitas - e a primeira delas foi voltar para os braços fartos e generosos do velho tamarindeiro, que desciam em ramas rendilhadas até o chão, como a convidar a abrigar-nos em seus galhos - nosso lugar preferido de jogos e brincadeiras. Hoje em dia, quando penso no velho tamarindeiro, sinto um nó na garganta e vontade de chorar, porque sei que pessoas insensíveis não o reverenciaram, não se renderam diante de sua majestade e o derrubaram, assim que a casa da tia foi vendida anos depois. Quanto ao Chiquinho, durante todos esses anos nunca o esqueci e é em nome dessa lembrança triste e nostálgica, grande companheira e formadora do meu caráter e sentimentos, que escrevi esta historieta.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

VIDA NA ROÇA – AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS – A REVELAÇÃO


“...o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum!” (Guimarães Rosa, Grandes Sertões Veredas, 1976)

O sol ia alto no céu. Pequenas nuvens brancas e esparsas, emolduravam o firmamento, algumas ainda cinzentas, lembrando a chuva da noite anterior. O calor àquela altura era abrasador me fazendo suar em bicas, mas eu não ousava arredar pé daquele canto onde me sentara com o palhaço para ouvir a revelação do mistério da fazenda.

E ele começou assim: o avô do seu Doquinha era um homem muito mau. “Mau mesmo, moça, de verdade.” Era o pior dono de escravos da região e muitos deles morreram dos maus tratos sofridos. Conta-se que os que sobreviveram rogaram-lhe uma praga. Seu Juvelino, como se chamava, era homem sem fé e não se importava com pragas. Também não gostava da Folia de Reis e nunca quis receber o grupo em sua casa. Dizem que à praga somou-se a maldição pelo desprezo que tinha pelas pessoas e pela descrença em Deus. “A rezadeira, Maria Iná, foi quem espalhou a história pela região”, explicou Joca. A falecida Maria Iná contou que uma vez, ao se aproximar da fazenda, a bandeira que o alferes levava à frente do grupo, caiu-lhe das mãos e manchou-se de sangue. Seu Juvelino, postado no portão que levava à varanda, impediu a entrada da Folia de Reis. Desde então, de acordo com Maria Iná, presente durante o acontecimento, caiu uma maldição sobre a fazenda. Pouco tempo depois, seu Juvelino morreu de doença misteriosa e o povo da região acredita que é seu fantasma que zanza pela casa à noite. Joca interrompeu a narrativa e me perguntou se eu tinha alguma vez escutado passos pela casa durante a noite. Respondi que sim, a essa altura morta de medo. Filhos e netos também foram amaldiçoados, segundo Maria Iná, e a maldição chegou ao seu Doquinha, cujos olhos adquiriam o aspecto amedrontador de animal selvagem quando se aproximava o dia dos festejos da Folia de Reis. Perguntei se a maldição também atingira Vitória e Ledinha. Ele afirmou que também se comentava na região que as meninas adquiriram o hábito de roubar. E quem era o palhaço que vi na Folia de Reis de ontem, que tinha os mesmos olhos do seu Doquinha, era ele?”, perguntei. “Sim”, respondeu. “Por quê?”, quis saber e Joca me disse que era a sina dele e aí me contou outra história. 

“Os palhaços” – explicou – são o diabo que, a mando do rei Herodes e seus soldados, teriam saído em perseguição ao Menino Jesus, para matá-lo. Eles são profanos, moça, simbolizam a coisa ruim, por isso eles não devem entrar em igrejas, eles não levantam a sagrada bandeira e não podem ficar sozinho no final da folia, senão o diabo os carrega.“ São, enfim, personagens sempre cercados de obrigações, como a de recolher dinheiro para ajudar a Folia de Reis, regras e restrições. Eles devem permanecer do lado de fora das casas dos devotos até o momento de sua apresentação. Dizem que é perigoso tocar na sua roupa ou na máscara. “Os palhaços precisam do sagrado da Folia de Reis para se purificar e pagar os pecados dos seus antepassados.” O que os palhaços fazem na festividade é pedir perdão pela perseguição ao Menino Jesus. Eles são os soldados de Herodes que se arrependeram quando viram o Menino Jesus e usam as máscaras para que o próprio Herodes não os reconheça e os acuse de traição.

“Mas na fazenda disseram que seu Doquinha estava em Macuco, por que mentiram pra mim?” E Joca respondeu que todos sabiam que era seu Doquinha quem estava por trás da máscara, mas ninguém dizia nada porque tinham vergonha de sua condenação. Quis saber ainda por que fora Dona Nadir quem beijou a bandeira se seu Doquinha estava na Folia de Reis. “Porque só ela podia fazer isso, porque vem de uma família de gente religiosa, que respeita e venera a Folia de Reis” – respondeu.
Faltava perguntar por que a filha da Dona Geny era uma menina tão estranha e apática. E Joca me contou que ela dormira certa vez na fazenda, para atender a mãe de Dona Nadir, que estava enferma e, ao escutar passos no corredor, abriu a porta para ver quem era. Ficou cara a cara com o fantasma do seu Juvelino. “Todo mundo na região sabe disso, moça.” Desde então a menina passou a sofrer terrores noturnos e ficara assim, como disse Joca, “doente dos nervos”.


Curiosidade satisfeita, quis saber se algum dia a maldição teria fim. Joca me disse que seu Doquinha ainda teria de ser o palhaço da Folia de Reis por um longo tempo. “Foi maldade demais do seu Juvelino, moça. Tem muito pecado pra pagar.” Pode ser que ele um dia chegue a ser o alferes da bandeira, também chamada de "Doutrina", o elemento sagrado da festa, beijada respeitosamente pelos moradores das casas visitadas. Nela está colada uma estampa dos Três Reis Magos. “Mas acho que ainda levará anos até que a maldição seja apagada e os pecados do seu Juvelino perdoados.” Quando chegar esse dia, haverá a redenção do seu Doquinha e a quebra da maldição que atingiu Vitória e Ledinha.

sábado, 2 de dezembro de 2017

VIDA NA ROÇA – AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS –IV


Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo. (Mark Twain)

Desviei o olhar do palhaço, procurei por todos os cantos a tia Maria e não a vi. Tentei ver se Vitória e Ledinha estavam perto, em vão. Meu coração batia acelerado, minhas pernas pesavam como chumbo, para onde olhava, não havia nenhum rosto conhecido. Chovera no dia anterior e o dia estava nublado e fresco, mas eu suava muito e minhas mãos estavam úmidas. Consegui chegar perto dos músicos para prestar atenção no que cantavam:

“Senhor e dono da casa, vai chegando a folia
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria ai ai ai!


Tentei concentrar-me na música, mas meu desejo íntimo era fugir dali. Finalmente, os foliões começaram a entrar pela varanda e eu os segui, enquanto o palhaço ficava para trás, rodeado das crianças da fazenda, que tentavam imitá-lo. Com esforço, consegui entrar na casa abrindo caminho penosamente. Havia muita gente, os peões e suas famílias vieram em massa. Finalmente consegui chegar no quarto onde dormia com a tia Maria. Fiquei lá, tentando recuperar a calma, mas minha cabeça girava.

Voltei à sala pouco depois e lá estavam Vitória, Ledinha e tia Maria. Respirei aliviada. A mesa estava posta com as gostosuras preparadas pela Dona Geny, que ia e voltava da cozinha, trazendo seus quitutes para servir primeiro o grupo da folia de reis: o mestre, o contramestre, os três reis magos, os palhaços, os alfeires e os foliões. Dona Nadir seguiu o ritual e beijou a bandeira, mas seu Doquinha, o anfitrião, havia sumido. Perguntei a Vitória onde ele estava e ela me respondeu que havia ido à Macuco para fazer uma transação de gado. 


Àquela hora eu costumava estar faminta, mas o medo embrulhou-me o estômago. Não consegui comer nada. Fiquei ali na sala, controlando o palhaço com o olhar e esperei até Dona Geny trazer o último prato. Voltei com ela para a cozinha. Ela me olhou curiosa, pensando que eu queria algum doce, mas ao ver meu olhar aflito perguntou-me o que havia acontecido. Não sabia o que dizer ou se devia dizer e então perguntei pela Lela. Notei uma sombra em seu olhar e ela respondeu que a filha ficara em casa cuidando dos irmãos mais novos. Achei estranho, porque os filhos da Dona Geny estavam no quintal brincando com o palhaço, menos a Lela. Por que Dona Geny mentiria para mim? Confusa, pedi licença e voltei para a sala. 


Aquela era a primeira vez que via uma Folia de Reis e os cânticos, a festa, a música entraram na minha alma para sempre. Gostava do ritual, das fantasias, só o palhaço me dava medo. “O que estraga a felicidade é o medo,” dizia Clarice Lispector e era verdade. Decidi que precisava conversar com alguém. Chamei tia Maria num canto e lhe perguntei se o palhaço era seu Doquinha. Ela perguntou-me em voz baixa, olhando para o lado oposto do grupo da folia de reis, se eu ficara com medo do palhaço. Respondi-lhe que sim e ela então me disse, mal disfarçando o sorriso, que depois conversaria comigo. 


Abastecidos da comida deliciosa da Dona Geny, chegou a vez da criançada se fartar também. Eles se aproximaram numa grande algazarra, tropeçando uns nos outros, como fazem os pombos quando se lhes oferece milho. O grupo da folia de reis, pegou seus instrumentos, violas, reco-reco, tambores, acordeões, sanfonas, pandeiros e gaitas e se despediu com reverências, cantando:


Senhor e dono da casa, a folia vai saindo
Fica com Deus nosso pai e a proteção do divino
Fica com Deus nosso pai e a proteção do divino ai ai ai!”


À noite, quando fomos dormir, quis saber do palhaço, mas tia Maria alegou cansaço e dor de cabeça, virou-se para o outro lado e dormiu. Disse-me “amanhã te conto”. Aquilo me deixou mais ansiosa e custei a dormir. Lá pelas tantas, ouvi passos no corredor. Alguém zanzava de um lado para o outro. Pé ante pé, fui até a porta, tentei abri-la devagarinho, mas a porta rangeu. Assustada, voltei correndo para a cama e me agarrei à tia Maria, que quase acordou. Os passos cessaram. Meu coração foi se acalmando pouco a pouco e adormeci. Tive um sono turbulento e cheio de pesadelos. Antes de adormecer, porém, prometi a mim mesma que tiraria aquela história a limpo no dia seguinte.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

VIDA NA ROÇA – AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS – III

Os dias que antecederam a Folia de Reis foram de muito rebuliço na fazenda. Dona Geny, a cozinheira que vivia de cara emburrada, trouxe uma assistente, sua filha Lela, uma menina magra, de cabelos desgrenhados e roupas muito velhas e encardidas. Enquanto brincávamos no quintal, Lela nos olhava com ar triste e distraído e sua mãe vivia ralhando com ela. Devia ter a nossa idade, entre 13 e 15 anos, mas era mais baixa e menos desenvolvida. Passados tantos anos ainda consigo ver perfeitamente as duas. Dona Geny era mulata, magra e movia-se com dificuldade. Com o tempo, percebi que uma de suas pernas era mais curta que a outra. Era baixinha, excelente cozinheira e, apesar do ar carrancudo, sempre sorria para mim quando, não podendo resistir ao cheiro da comida que se espalhava pela casa, aproxima-me do fogão e lhe pedia para provar um quitute. Ela o dava de bom grado, ao contrário da minha mãe que não admitia que eu comesse nada antes das refeições – o que me deixava sempre muito contrariada. Ameaçava não comer mais nada, mas minha mãe não se importava. Sabia que era chantagem. Dona Nadir, mãe de Vitória e Ledinha, não se atrevia a se meter na cozinha – aquela era a seara da Dona Geny e era ela quem decidia o que íamos comer a cada dia. E era tudo sempre muito delicioso. Se fechar meus olhos agora, acho que ainda posso sentir o gosto da comida dela.

Nos dias que antecederam a Folia de Reis, Dona Geny andava de um lado para o outro, atarefadíssima, preparando quitutes para receber os foliões. Mal pude acreditar quando a vi fazendo olho de sogra, meu doce preferido. Fez um prato enorme e o deixou na cristaleira, à mercê da minha gula, e eu ia sorrateiramente até a sala, me certificava de que não havia ninguém e comia um doce. Mais tarde, voltava e comia outro, e ficava assim o dia inteiro - uma compulsão. E eu tinha de ajeitar os doces na bandeja para não deixar buracos. Ou será que Dona Geny os preenchia, ciente que devia estar da minha gulodice? 


Vitória andava lá pras bandas de Macuco provando o vestido de 15 anos na costureira. Não me levou, porque queria que fosse surpresa. Só voltei a Macuco uma vez, quando foram comprar o tecido. Nunca tinha visto nada tão bonito e eu certamente faria feio com meu antigo vestido de nylon, fora de moda, que minha mãe mandara fazer para o casamento do meu tio, três anos atrás. Já estava meio apertado, principalmente a blusa, que achatava meus seios. Quando o vesti pela primeira vez, achei-o bonito, até que começou a me picar e a me dar alergia. Mas era o único vestido de festa que eu tinha.
Vitória voltou de Macuco e voltamos às cavalgadas matinais e aos banhos de rio, até que um dia, ao voltarmos para a fazenda, vimos à distância um grupo se aproximando da casa e Vitória anunciou: “Vamos depressa que está chegando a Folia de Reis.” 


Chegamos pouco depois dos foliões, que pararam na entrada da varanda da casa. Gilberto, irmão mais novo de Vitória e Ledinha, gritava com a voz dos seus 4 aninhos: “E toca, sanfoneiro!”. E o sanfoneiro tocava: tararatantan-tantan-tantan, uma melodia que nunca esqueci, enquanto o palhaço dançava e fazia malabarismos. Ele usava uma máscara e só se lhe viam os olhos. Um arrepio de medo percorreu meu corpo. O palhaço tinha os mesmos olhos famintos e selvagens, os mesmos olhos de predador do seu Doquinha, pai de Vitória e Ledinha.

sábado, 25 de novembro de 2017

VIDA NA ROÇA – AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS – II

Vitória ia fazer 15 anos e minha mãe deixou que eu acompanhasse a tia Maria para a festança na fazenda. Eu ia ficar uns dias fora de casa e aquela era a primeira vez para mim, que sonhava conhecer o mundo. Acompanhei a tia da Vitória numa longa e inesquecível viagem, que me fez sentir o sabor, o cheiro, a cor e o som da liberdade. Estaria longe das garras sempre tão seguras da minha mãe, como na música do Ivan Lins. A sensação de liberdade que senti naquela viagem me acompanharia pelo resto da vida, fazendo-me lutar por ela - nenhuma garra, nenhum obstáculo, ninguém tiraria isso de mim...”abra as asas sobre mim, ó Senhora Liberdade...” Nova Friburgo, Bom Jardim, Cordeiro, desfilavam diante dos meus olhos ávidos e deslumbrados até chegarmos finalmente a Macuco, na época um vilarejo. 

De Macuco até a fazenda em São Sebastião do Alto era outro estirão, cheio de sacolejos. No caminho, só mato, árvores e muito boi. Chegamos à fazenda já quase noite, com os lampiões acesos. No dia seguinte, às 5 da manhã, me acordaram. Já era tarde para eles, os peões estavam desde cedo no campo. Ensinaram-me a levar a caneca até o estábulo e pegar o leite quentinho da vaca. Na casa, a lenha no fogão assava o bolo de milho. Depois do café, pegávamos os cavalos, saíamos pelos campos rodeados de montanhas aveludadas e tomávamos banho de rio. Rapidamente aprendi a montar e a cavalgar. Voltávamos às 9, quando serviam o almoço e às 4 da tarde, depois do jantar, ficávamos conversando na varanda até anoitecer, quando tínhamos de nos recolher aos nossos quartos. 

Acostumada a dormir mais tarde, custava a pegar no sono. E foi então que comecei a ver coisas estranhas acontecendo. O pai da Vitória e Ledinha zanzava pela casa, quando todos dormiam, qual alma penada. Para onde ia aquele homem? No dia seguinte, a mesma cena se repetia. Passei a ter medo dele, daquele olhar faminto e selvagem, olhos de predador. Pulava para a cama da tia Maria e me grudava nela, colocava objetos atrás da porta e meu sono, sempre tão pesado, tornou-se leve. Já não era mais divertido. Tinha sono durante o dia, por causa da vigília noturna e do medo, muito medo. Evitava aquele homem, fugia dele. Não sei se tia Maria percebeu alguma coisa. Um dia me chamou para ir à Euclidelândia, onde morava a outra irmã. Cavalgamos o dia inteiro e chegamos à noite. Não sei quantos dias ficamos nessa outra fazenda. Só voltamos a São Sebastião do Alto uns dois dias antes da festa luxuosa dos 15 anos de Vitória. Pouco depois, viajamos de volta ao Rio.

Ao chegar, me sentia estranha, não entendia a confusão que tinha se instalado na minha cabeça. Talvez, segundo Bernard Shaw, a ansiedade e o medo tenham envenenado meu corpo e meu espírito. Minha intuição dizia que todas as famílias têm baús repletos de segredos e ai daquele que ousasse revelar um só deles. Resolvi esquecer, apagar tudo da memória. Algo em mim, porém, mudou para sempre e minha amizade com Vitória e Ledinha esfriou. A alegria e a emoção dos nossos reencontros já não existiam mais e elas também não eram mais as mesmas. Aos poucos, fomos nos distanciando e um dia minha família mudou para outro bairro. Nunca mais as vi.


Só agora, quando releio as cartas de Vitória e Ledinha, me voltam as lembranças adormecidas daquele tempo, relembro os sentimentos confusos e o desassossego. Só agora consigo juntar as peças e concluir o quebra-cabeça.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

VIDA NA ROÇA - AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS

Quando fiz a limpeza no quartinho da bagunça, queria mesmo era encontrar a caixa grande, onde guardei, durante tantos anos, todas as cartas, bilhetes de antigos namorados, cartões de Natal, de aniversário, cartas e cartões das minhas filhas. Sim, sou uma pessoa sentimental a ponto de nunca ter jogado fora nenhuma correspondência recebida.

Abri a caixa, organizei aquela pilha confusa, separando-a pelos remetentes. Fiquei surpresa de encontrar as cartas de Vitória e Ledinha, duas amigas da adolescência, que tanto amávamos. A avó delas era nossa vizinha, uma senhora que aparentava ter uns 200 anos, tamanha era a quantidade de rugas naquele rosto marcado pelo tempo e a vida dura da roça. Até hoje, nunca vi rosto tão enrugado. 


Vitoria e Ledinha moravam numa fazenda em Macuco e passavam as férias na casa da avó e seus quatro tios. Quando elas chegavam, mal baixavam as malas, iam correndo lá pra casa e aí nos abraçávamos, rindo e chorando de pura alegria e saudade. Puxa, aquilo sim era felicidade! Depois, íamos para o quarto da minha mãe e lá nos sentávamos na beira da cama para conversar. Era uma estratégia, porque Vitória era engraçadíssima, conhecia todo mundo e sabia contar mil histórias. Era a nossa Sheherazade. Contava histórias como a de uma vez em que a mãe dela pegou um cinto para dar umas cintadas na Ledinha. O pai agarrou a outra ponta do cinto e ficaram os dois discutindo aos berros, cada um puxando para um lado. Vitória foi lá na gaveta, tirou uma super tesoura e cortou o cinto ao meio, deixando cada um com um cotoco. Era numa hora dessas que nos deitávamos na cama da mamãe para rir até não poder mais, imaginando a cena cômica. Vitória também era muito namoradeira. Na viagem de Macuco ao Rio, ela sempre conhecia algum rapaz e o namorava; na volta para Macuco, conhecia outro e namorava também. Certa vez, comentou: “Não fico de mal com nenhum ex-namorado.” E Ledinha contestou rapidamente: “Se você ficasse de mal, não falaria com rapaz nenhum em Macuco.” Mais outras gargalhadas na cama da mamãe.


Mas toda luz tem sua sombra, como descobriram os Renascentistas com o “Chiaroscuro”, uma revolução que mudou a pintura chapada da Idade Média. Vitória e Leda roubavam, eram cleptomaníacas. Quando chegavam assim de surpresa, ao saírem fazíamos um inventário das coisas que tinham levado: um grampinho ou um arco de cabelo, uma escova mal-ajambrada, uma blusa surrada... nada de valor e não entendíamos o porquê. Simplesmente íamos sorrateiramente na casa da avó delas e pegávamos tudo de volta. E tínhamos de deixar tudo trancado, escondido, para que não roubassem de novo. Nossa amizade transcendia qualquer deslize, qualquer fraqueza moral. Era o que de melhor tínhamos e não queríamos nunca perder. 


Hoje em dia, acho que sei o que as faziam ter esse desvio de conduta, mas contarei no próximo post, porque este está grande demais.

O CLIMA DO ANO

Há tempos venho notando que a natureza absorve nossos humores, mas isso é assunto pra outro post. Lembro que, em 2016, meu pé de amora fic...