quarta-feira, 7 de abril de 2010

Mãe


Quem ousa falar mal da mãe? Quem teria a ousadia de atacar uma mãe que se comporta bem socialmente, cuida bem de seus filhos, dá-lhes de comer nas horas certas e os mantém sempre limpinhos? Poucos, acho. A aura divina que emana de Nossa Senhora parece envolver todas as mulheres que se tornam mães. Falar mal da mãe é ofender Nossa Senhora. É coisa que não se faz.

Falar mal da mãe é sacrilégio, é maldade de filho ingrato. Quem assim procede, recebe olhares reprovadores,discriminatórios. Acaba se sentindo excluído e é quase obrigado a fazer um mea culpa. A mãe é figura inatacável, irretocável, sublime e sagrada.

Essas questões me perturbam no momento em que recebo minha mãe em casa. Nunca tivemos um bom relacionamento em nossa longa convivência, e hoje penso que talvez seja porque eu nunca fui uma filha obediente. A obediência sempre pareceu significar muito para minha mãe. O medo, talvez instintivo, de desobedecê-la fez com que meus três irmãos se tornassem pessoas dóceis, meigas e amorosas. A obediência cega deu-lhes o maior presente que poderiam receber: o amor de nossa mãe. O mesmo, infelizmente, não aconteceu comigo. Nunca aceitei cambiar minha liberdade por coisa alguma. E pago um preço muito caro.

Sinto-me como uma ovelha desgarrada. Minha mãe me olha com uma indiferença que ela mesma não ousa reconhecer. É como se me acusasse o tempo todo: "desobediente?!" Não existe entre nós sinceridade, cumplicidade, amor, aproximação. Tudo o que existe é estranheza e cerimonialismo. Pisamos em ovos uma com a outra. Entre nós há apenas uma enorme de distância, que o tempo só faz aumentar.

Tento usar as palavras, ora duras, impacientes, ora suaves, para me aproximar dela, mas sinto que estamos a anos-luz de distância uma da outra. Há, na verdade, um buraco negro que nos suga, impedindo-nos de nos ver tal como somos. O tempo corre, ela está chegando ao fim e eu quase morri. Minha angústia é saber que nosso encontro aqui na Terra pode ser impossível.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Voltando para casa

Receber alta do hospital é a maior alegria que um doente pode ter. Voltar para casa nunca foi tão bom. Sempre que viajava, detestava a hora do regresso. Aquela era a terceira vez que meu coração se enchia de alegria de poder ver minha casa outra vez.

Dentro do táxi eu só pensava na minha reabilitação e na volta ao trabalho. Era questão de mais uns dias. Se o exame de urina não acusar nenhuma bactéria estarei livre e pronta para reassumir minhas funções. Eu mal podia esperar. Tantas vezes tinha sonhado com a volta que achei melhor ser mais cautelosa daquela vez.

Ao chegar em casa, a surpresa desagradável: não ia mais poder contar com a visita da minha fisioterapeuta. Eu teria de ir à clínica que fica perto de casa. Mas eu tinha medo de ir à rua sozinha. Era mais um obstáculo a superar.

O exame de urina feito na semana seguinte não acusou nenhuma bactéria. Eu ganhara a guerra. Falei com a médica e ela me liberou. Eu ia voltar ao trabalho. Não estava ainda plenamente restabelecida, mas tinha muita disposição e força. Mandei e-mail para todo mundo avisando. Meus amigos me apoiaram e ficaram felizes. Como é bom ter amigos! “Meu Deus eu Vos agradeço por ter me ajudado a superar mais essa etapa.”

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Voltando ao hospital

Fiquei internada sete dias e dessa vez em outro hospital. Em momentos assim é difícil manter a esperança. Tudo parecia estar desmoronando ao meu redor. O meu sofrimento parecia longe de terminar. É melhor desistir de tudo, não adianta. Parece que mais bactérias vão surgir e elas vão vencer, vão se apoderar do meu corpo e destruí-lo. Foi o que expressei em conversa com um médico e ele me disse com toda convicção: “nao importa quão forte elas sejam, a gente vai sempre destruí-las e vencê-las.” Infelizmente, não é bem isso o que se lê nos jornais, mas eu queria acreditar nas palavras do médico e achei melhor decorar o que ele disse. “Eu ia vencer, eu vou vencer, estou vencendo, porque sou mais forte.”

Enfrentei os sete dias de tratamento intravenoso com coragem e disposição. Sete longos dias. Não foi fácil, creia-me. É muita solidão e medo a vencer e não adiantam as palavras de conforto. Elas soam como clichês e chegam a aborrecer, às vezes. A verdade é que o fim do túnel parece muito longe, mesmo estando a uma distância de sete dias. São sete dias que se arrastam em longuíssimas horas. São sete noites intermináveis.

Ao término de toda essa irritante espera, eu ainda sentia desconforto ao urinar e tinha algum sangramento. Teria de esperar mais uma semana para ter certeza de estar livre da perigosa bactéria. Seriam mais sete dias intermináveis. Mais sete noites que se arrastariam em longuíssimas horas. “Meu Deus, dai-me paciência e fé.”

domingo, 4 de abril de 2010

Voltando outra vez para casa - final

Adriana havia saído antes da minha hospitalização e novamente tivemos de enfrentar a seleção de uma substituta, que não ficaria muito tempo. Eu continuava com a fisioterapia e me empenhava de todo coração. Queria muito voltar à minha vida normal e cada dia me sentia mais forte. Era impressionante o meu progresso. Mas o destino voltou a me pregar outra peça.

Porque me movimentava mais, passei a sentir dores e ter sangramento na uretra. Fui ao urologista, como me indicaram, mas os exames não eram conclusivos. Desesperada, recorri à minha querida sobrinha médica, e foi ela quem prescreveu outro exame que indicou que eu estava sendo vítima de uma bactéria chamada Acynetobacter. Mais uma e essa era a terceira. A primeira foi detectada quando ainda estava na UTI e me atingiu os pulmões. Era a Pseudomonas Aeruginosa, também muito perigosa.

Voltei ao urologista com o resultado do exame e ele receitou 14 injeções dolorosíssimas, que me deixaram com caroços nas nádegas durante muito tempo. As injeções eram tomadas pela manhã e à noite. No meio do tratamento, me senti melhor, mas assim que as aplicações terminaram as dores e o sangramento voltaram, para meu desespero. Passei horas tristes e solitárias, procurando entender a razão daquilo tudo, daquela noite escura e sobria que não parecia ter fim.

As injeções não surtiram efeito e o médico urologista me abandonou. Nunca entendi por quê. Outra vez minha sobrinha interveio, botando em meu caminho a Dra Cristina, que optou por uma internação para tratamento intravenoso. “Meu Deus, eu Vos suplico, me ajude a superar mais este momento difícil. Dai-me forças.”

sábado, 3 de abril de 2010

Voltando outra vez para casa - parte 1

Antes da hospitalização para remover o abscesso eu contava apenas com Zini e Adriana, que se revezavam em turnos de 8 horas cada uma. À noite, dormia sozinha. Felizmente e por sorte, a filha mais velha estava em casa nessa época,me visitando, e eu tinha companhia. À noite, sempre jantávamos juntos e era uma festa. Eu me divertia com o meu netinho e me sentia profundamente feliz. Mas o tempo, que transcorria com raivosa lentidão no hospital, parecia agora voar. (Tristeza não tem fim; felicidade, sim)

Com a partida da filha mais velha, eu agora ia experimentar dormir sozinha todas as noites. Era um desafio e eu estava assustada. Ainda precisava de cuidados. Depois do acidente, passei a experimentar o que as pessoas chamam de doença do pânico. Na primeira fase da minha hospitalização,não conseguia ficar só nem um minuto. Se uma das moças saía do quarto, ainda que brevemente, eu chorava em desespero. Zini gostava de sair para fumar e teve de se privar do vício enquanto cuidou de mim. Tudo isso dificultava a vida delas, porque não podiam sair nem para comer. Para contornar a situação,eu pedia excesso de comida e dividia com elas.

Uma psicóloga veio me atender. Era uma mulher simpática e muito doce, mas não gostei dela, profissionalmente. Ela tentava me consolar, dizendo "você é uma pessoa muito forte, vai superar tudo isso, etc., etc." Eu sempre soube que era forte, ou não teria resistido a tantas vicissitudes ao longo da minha vida. Não queria ouvir frases de efeito, e era tudo o que ela tinha para me oferecer. Não questiono que deve funcionar para muitas pessoas. Para mim, não. Não me consolavam, não me curavam. Eu esperava mais dela, algo que ela nunca me deu, mesmo tendo prometido e mesmo nos meus momentos de maior dor.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Quando é preciso voar - final


Ao perceber que me aproximo, ela foge correndo, embrenhando-se na mata, que parece lhe dar o aconchego de que precisa. Vejo-a passar rapidamente pelos lírios do campo, aspirar-lhes o perfume e parar por um momento à beira de um rio, que corre manso e cantarolando em seu leito de pedras redondas e amareladas.

A menina se detém por um momento e vira-se para trás, olhando em minha direção. Tem os olhos assustados e doloridos. Tento me aproximar mais uma vez, mas ela torna a fugir. O corpo magro e as pernas finas como gravetos dão-lhe um ar etéreo. Parece que a qualquer momento ela vai voar. Sigo olhando e, de repente, vejo que a menina ergue os braços para o céu e seu corpinho se desprende da terra, levemente.

Ela voa como uma borboleta, seguindo o curso do rio. Desaparece no horizonte e noto que o sol está quase se apagando e as cores, antes vibrantes e abundantes, começam a se misturar, formando um tom único e esmaecido.

Permaneço parada um longo tempo, esperando que a menina volte. Por um breve instante, parece-me ver suas asas douradas surgindo por detrás da mata. Mas era apenas o sol despejando seus últimos raios e dando adeus ao dia.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Quando é preciso voar - parte 1

(Este conto é dedicado a Isabella Nardoni, pobre menina torturada pela madrasta e morta pelo pai)
Caminho por uma estrada longa de terra batida. De cada lado, uma alameda de eucaliptos altos e esguios desenha no chão linhas perfeitas e retas. O sol se infiltra por entre as árvores formando desenhos arbitrários e assustadores, enquanto se ouve ao longe uma sinfonia perfeita executada por insetos e grilos. De resto, tudo na mata que se estende à minha frente é silêncio e harmonia.

Ando na direção oeste e de longe vejo um pequeno vulto que caminha na minha direção. O sol prepara sua despedida, colorindo o céu com tons de rosa, azul pálido e amarelo vivo, quase alaranjado. É um lindo final de tarde de outono que vai embora lentamente, enquanto aguarda pacientemente que a noite vista com calma seu longo vestido negro, salpicado de lantejoulas. A noite não tem pressa e a natureza parece reter um suspiro de inquietação, aguardando sua entrada triunfal.

Apresso o passo para encontrar-me com o vulto que caminha na minha direção. É uma menininha que chora desconsoladamente. Por que chora a menina?

O CLIMA DO ANO

Há tempos venho notando que a natureza absorve nossos humores, mas isso é assunto pra outro post. Lembro que, em 2016, meu pé de amora fic...