domingo, 28 de fevereiro de 2010

A terceira sinfonia de Brahms - parte 5

Foi lá no sítio que Silvio me contou sua história. Seu destino não era ser engenheiro. Ele sonhava em voar, desde menino. A família o mandou para Barbacena, onde estudaria para ser piloto da aeronáutica. Uma febre reumática pôs fim aos seus sonhos e ele nunca conseguiu superar o desejo frustrado. Tinha uma tristeza infinita no olhar, o que o tornava especialmente atraente. Foi com Silvio que perdi a virgindade.

Um dia, quando estávamos na casa da dona Anne, ele me levou a conhecer um sítio que queria comprar. Pediu-me moderação no entusiasmo, alegando que o preço poderia ficar mais caro. O sítio era lindo e Silvio o comprou. Naquele instante, soube que estava apaixonado por mim e que ia querer se casar comigo. Foi o suficiente para que eu me desinteressasse dele e saísse da sua vida. Sei que ficou profundamente magoado e ficamos muitos anos sem nos ver.

Encontrei-o casualmente na rua, no centro da cidade. Trocamos olhares de admiração. Ele continuava lindo e eu quase não havia mudado, na aparência. Chamou-me para ir ao apartamento dele. Continuava morando no mesmo lugar, depois de anos. Cheguei a ir lá. Era um apartamento simples demais, para quem tinha uma boa situação financeira. A decoração era sombria e triste. Os móveis pareciam juntados ao acaso, sem harmonia. E eram todos feios, descuidados e sujos. Em toda a casa não havia uma única cor alegre, vibrante. Tudo tendia para o marrom escuro, fechado, deprimente. Não era um lar feliz. Conversamos longamente, mas já não éramos os de antes. Muito tempo se havia passado e já não nos entendíamos mais. Saí definitivamente da vida dele. Nunca mais o vi.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Terremoto no Chile

Meu pensamento e minhas orações vão para o povo chileno, vítima de um terremoto esta madrugada. Conheci esse país lindo, quando estive lá durante a ditadura do Pinochet, e aprendi a amá-lo. Fiz ótimas amizades e elas só não perduraram porque o chileno não é lá muito de escrever. Pelo menos foi a explicação que recebi. Mas eu amo vocês, queridos amigos, e sinto saudades. Que Deus proteja o Chile e sua gente. Arriba Chile!!!

A terceira sinfonia de Brahms - parte 4

Chegamos cedo pela manhã em Guapi e fomos todos ao pomar colher amoras. Dona Anne ia fazer uma deliciosa torta para a sobremesa. Enquanto colhíamos a fruta, ela me ensinou a cantar uma antiga canção francesa “La Mer”, que em francês pode significar tanto o mar quanto, foneticamente, a mãe (la mère). A música, muito conhecida até hoje, foi, durante longo tempo, um grande sucesso e teve sua versão para o inglês “Beyond the Sea” cantada por Bobby Darin.

Veja Charles Trénet, ao vivo, no Olympia de Paris cantando “La Mer” e cante você também. A letra vem logo abaixo.
http://www.youtube.com/watch?v=KHYj1-3QrrY&feature=related

La mer
Qu'on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d'argent
La mer
Des reflets changeants
Sous la pluie

La mer
Au ciel d'été confond
Ses blancs moutons
Avec les anges si purs
La mer bergère d'azur
Infinie

Voyez
Près des étangs
Ces grands roseaux mouillés
Voyez
Ces oiseaux blancs
Et ces maisons rouillées

La mer
Les a bercés
Le long des golfes clairs
Et d'une chanson d'amour
La mer
A bercé mon coeur pour la vie

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A terceira sinfonia de Brahms - parte 3

Eu já notara os olhares insistentes de Silvio, as brincadeiras e as insinuações. Não tinha conseguido amar o Paulo e achei que poderia me apaixonar por ele, um rapaz bonito e esbelto, de olhos azuis e cabelos castanhos, dono de um Karman Ghia vermelho. O tempo passava e eu não tinha coragem de definir nada com nenhum dos três.

Um dia, Silvio me chamou para um passeio. Levou-me ao sítio de uma francesa, dona Anne, e seu marido, um crítico literário. Eles moravam perto de Guapimirim. Gostei do casal e da casa rodeada de canteiros de flores e cheia de estantes de livros. Assim que ouviu meu nome, dona Anne se pôs a cantarolar uma música do século XIX, usada pelos soldados franceses na marcha em direção à guerra. Com o tempo, a canção entrou para o repertório infantil. Ironicamente, dona Anne, que mal me conhecia, acabou sendo o corifeu do meu teatro.

Ne pleure pas, Jeannette,
Tra la la la la la la la la la la la la,
Ne pleure pas, Jeannette,
Nous te marierons {x2}
Avec le fils d'un prince, Tra la la ...
Avec le fils d'un prince,
Ou celui d'un baron {x2}
Je ne veux pas d'un prince, Tra la la ...
Je ne veux pas d’un prince
Encor moins d'un baron (x2)
Je veux mon ami Pierre, Tra la la ...
Je veux mon ami Pierre
Qui est dans la prison (x2)
Tu n'auras pas ton Pierre, Tra la la ...
Tu n’auras pas ton Pierre
Nous le pendouillerons (x2)
Si vous pendouillez Pierre, Tra la la ...
Si vous pendouillez Pierre
Pendouillez-moi z’avec(x2)
Et l'on pendouilla Pierre, Tra la la ...
Et l’on pendouilla Pierre
Et sa Jeannette avec. (x2)

Ouça a música:
http://www.youtube.com/watch?v=NqDyvHgxoKY

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A terceira sinfonia de Brahms - parte 2

Uma vez, ele me convidou a ir ao apartamento onde morava, em Vila Isabel. Eu era virgem, tive medo e recusei. Ele jurou que só ia fazer um almoço especial para mim e queria que eu ouvisse uma música, aquela que seria a nossa música. Era a terceira sinfonia de Brahms.

Ouça a terceira sinfonia de Brahms, em seu terceiro movimento, executada pela orquestra filarmônica de Londres, sob a regência do maestro Felix Weingartner. A gravação é de 1938!

http://www.youtube.com/watch?v=pbab6FrKC1M&feature=related

Paulo fez tudo o que um homem, mesmo apaixonado, não costumava fazer naquele tempo, e cumpriu rigorosamente o que prometeu, deixando-me na porta de casa. Era um cavalheiro, mas nem essa qualidade me impediria de traí-lo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A terceira sinfonia de Brahms - parte 1

Era com Paulo que eu devia ter me casado. Minha mãe fez de tudo para me forçar a casar com ele. Paulo tinha todas as qualidades para um futuro bom marido: era sério, terno, amoroso, me amava e, como se não bastasse, tinha ainda uma boa profissão e ganhava bem. Pena que não tinha a qualidade mais importante pra mim, naquela época. Era feio. Ao lado do meu futuro marido a feiúra dele se acentuava. Escolhi casar com aquele que só tinha a última das qualidades do Paulo.

Ao fazer minha escolha eu o perdi para sempre. Soube, tempos depois da nossa separação e quando já estava casada, que ele tinha se casado com uma judia mais velha do que ele, e que tivera uma filha. Fiquei com inveja, com ciúme e senti um profundo arrependimento.

Nós nos conhecemos no trabalho. Paulo inventava qualquer pretexto para ir à minha sala. Eu sabia que ele era noivo e, embora não oficialmente, eu também era. Um dia, ele tomou coragem e me convidou para almoçar, e eu lhe joguei na cara que sabia que era noivo. Ele não se deu por vencido: “Só chamei para almoçar”. Não sei por quê gostei da resposta e fui almoçar com ele. Levou-me a um dos melhores restaurantes das redondezas da Praça Mauá, onde trabalhávamos, o “Mosteiro”. Ele quis me impressionar e conseguiu. Outros almoços se seguiram e eu percebia que Paulo estava gostando de mim. Podia ter dito que não o amava, que não perdesse seu tempo comigo, mas eu era inconsequente, não queria perder a companhia, as idas ao cinema, os prazeres gastronômicos e o papo agradável. Eu me calei e fui adiante.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Purgatório - final

Minha filha acabou concordando comigo, mas falou da sua preocupação com a dificuldade que estávamos tendo para conseguir uma acompanhante à altura da Adriana. Rezei muito e Deus me atendeu. Depois da moça má, finalmente veio outra, também de nome complicado, mas boazinha e eficiente.

Nekar e Adriana se apiedavam do meu sofrimento noturno e não davam trégua aos técnicos de enfermagem. Iam atrás deles em busca do alívio para as minhas dores. Graças a elas eu consegui ter forças para superar toda aquela provação.

O braço esquerdo precisou ser operado de novo, o que deixou o ortopedista irritadíssimo. Ele se queixava do descaso da enfermagem. O braço direito continuava engessado, mas chegou o dia em que o gesso foi removido. Meu coração palpitava de alegria. Eu ia pelo menos ter um braço livre. Ia poder coçar o nariz, passar a mão no rosto, tocar a campainha. Era mais um passo em direção à liberdade.

O médico veio acompanhado do técnico do raios X, que retirou o gesso. Ele me pediu que para fazer alguns movimentos e relatar qualquer dor. Infelizmente, o braço doía e, para meu desespero, ia voltar para o gesso. Não disse nada ao ortopedista, mas acho que de tanto bater esse braço, quando estava na UTI, devo ter atrasado minha recuperação. Ainda não era daquela vez que ia ficar livre e acabei terrivelmente deprimida. Minha provação parecia não ter fim.

O CLIMA DO ANO

Há tempos venho notando que a natureza absorve nossos humores, mas isso é assunto pra outro post. Lembro que, em 2016, meu pé de amora fic...