Não sou professora, não entendo nada de Educação, mas hoje, lendo o Le Figaro, dei de cara com uma reportagem que vi na TV esta semana. Aqui como na França, reclama-se do baixo nível educacional e critica-se o modo como o governo lida com a questão. Estou falando do resultado da pesquisa da OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
Para quem não sabe, assim como eu não sabia, a cada três anos o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), da OCDE, avalia leitura e conhecimentos de matemática e ciências de alunos de 15 anos ou mais de 65 países do mundo, matriculados a partir da 7a. série do Ensino Fundamental.
O Brasil obteve 412 pontos, ficando em 51o. lugar. Olhando assim, parece um resultado pífio, mas os mais de 20 mil estudantes que participaram da pesquisa conseguiram um avanço de 30 pontos em matemática em relação a 2006, data da última avaliação. Em leitura, superaram a faixa dos 400 pontos, chegando a 405. Pularam dos 390 pontos em ciências para 405. Há 9 anos o Brasil vem apresentando bons resultados.
Mas por que estou falando deste assunto? Porque a Globo exibiu a matéria baixando o pau no Brasil, comparando nossos resultados aos da Albânia, Colômbia, Jordânia e, pasmem!, Argentina. Acontece que eles se "esqueceram" de alguns detalhezinhos importantes. E é disso que vou falar, porque também não sabia. Como disse, graças ao jornal francês pude entender o jogo sujo embutido na notícia.
Nesta última avaliação, três países integraram a pesquisa: Taiwan, Macau e Hong Kong. Xangai (China) obteve o 1o lugar, seguido da Coreia do Sul, em 2o., Finlândia em 3o. e Hong Kong em 4o. China e Coréia do Sul desbancaram a Finlândia. Aliás, a Ásia ficou com os melhores resultados, enquanto à Europa e Estados Unidos restou mesmo muita preocupação. A queda do nível educacional em países desenvolvidos vem se acentuando. Suécia e Irlanda tiveram resultados ruins, enquanto Alemanha, Itália e Portugal tiveram melhor performance graças às medidas que passaram a adotar. O Brasil se inclui entre estes países.
No Le Figaro de hoje há uma matéria sobre a Coreia do Sul. Lá, os jovens são obrigados a estudar à exaustão. Em época de provas importantes, eles não dormem mais do que 5h30 por dia. Em dias normais, além de estudarem de 8h às 18h, eles ainda enfrentam aulas noturnas, indo dormir muito tarde da noite. Para o país, o sucesso escolar está associado ao êxito profissional e financeiro. É tanta a obsessão da Coreia do Sul com a educação que o presidente Barack Obama tem pedido a alunos e professores americanos que se inspirem no modelo coreano.
Há muito mais para se dizer, mas o mais importante mesmo é não aceitar como verdade tudo o que se vê e se ouve na TV. Especialmente quando se sabe que essa TV se envolveu até o pescoço com o candidato derrotado, chegando a passar por uma situação ridícula. Segue tabela (não está muito legível) que mostra os bons desempenhos. Observem que o Brasil aparece nela (é o antepenúltimo).
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
RESPOSTA A MOI
Aceito o ponto de vista de qualquer um e até agradeço que compartilhem comigo. Uma pessoa que se chama Moi me escreveu, apontando o preconceito implícito no texto "O Cravo não brigou com a Rosa", que não é de minha autoria. Fiz a postagem, porque gostei imensamente das considerações feitas pelo professor Luiz Antonio Simas.
O Moi (ou a) talvez tenha levado o texto muito ao pé da letra e provavelmente não tenha entendido a ironia ali implicita. O autor foi muito feliz ao deixar bem claro que quem usa palavras politicamente corretas está sendo, na verdade, hipócrita e preconceituoso. Chamar anão de "pessoa com problemas de crescimento" ou "vertically challenged" é usar um eufemismo ridículo e hilariante. É muito mais preconceituoso e ridículo do que dizer "negão", "pintor de rodapé", "rolha de poço", etc., que pelo menos são expressões criativas. Essas pilhérias podem até ser ofensivas, mas, a meu ver, muito menos do que "afro-descendente", por exemplo.
Foi pensando desta forma que postei o texto do professor Luiz Antonio Simas.
O Moi (ou a) talvez tenha levado o texto muito ao pé da letra e provavelmente não tenha entendido a ironia ali implicita. O autor foi muito feliz ao deixar bem claro que quem usa palavras politicamente corretas está sendo, na verdade, hipócrita e preconceituoso. Chamar anão de "pessoa com problemas de crescimento" ou "vertically challenged" é usar um eufemismo ridículo e hilariante. É muito mais preconceituoso e ridículo do que dizer "negão", "pintor de rodapé", "rolha de poço", etc., que pelo menos são expressões criativas. Essas pilhérias podem até ser ofensivas, mas, a meu ver, muito menos do que "afro-descendente", por exemplo.
Foi pensando desta forma que postei o texto do professor Luiz Antonio Simas.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
ESTÁ CERTO DIZER "TORTA NEGA MALUCA"?
Virou piada o tal do "politicamente correto" e o povo deita e rola. Leiam e divirtam-se com a piada abaixo.
Uma senhora entra numa confeitaria e pede ao balconista uma torta "Nega Maluca".
O balconista diz à cliente que usar o nome "nega maluca" hoje em dia pode dar cadeia, devido a:
- Lei Affonso Arinos;
- Lei Eusébio de Queiroz;
- Artigo Quinto da Constituição;
- Código Penal;
- Código Civil;
- Código do Consumidor;
- Código Comercial;
- Código de Ética;
- Moral e Bons Costumes,
- Além da Lei 'Maria da Penha' ...
- Então, meu filho, como peço a porra dessa torta?
- Torta Afro-descendente com distúrbio neuro psiquiátrico...
domingo, 21 de novembro de 2010
A SALA DE ÂMBAR
Hoje é meu aniversário e estou me dando de presente um vídeo sobre a Sala de Âmbar. Em russo, Янтарная комната Yantarnaya komnata; em alemão, Bernsteinzimmer. Para quem não conhece a história, a Sala de Âmbar é considerada por muitos como a Oitava Maravilha do Mundo, por sua beleza singular.
A Sala de Âmbar fica no Palácio de Catarina de Tsarskoye Selo, perto de São Petersburgo. Foi um presente do Rei da Prússia Friedrich Wilhelm I para seu amigo e aliado, o tzar Pedro, o Grande. Ela se constitui de painés de âmbar apoiados em folhas de ouro e espelhos. O projeto é do escultor barroco Andreas Schlüter. A construção da sala foi iniciada em 1701, na Prússia, e permaneceu no Palácio de Charlottenburg até 1716. Na Rússia, o projeto sofreu acréscimos e alterações e chegou a ter seis toneladas de âmbar.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas desmontaram os paínéis de âmbar e os levaram para Königsberg. Durante anos, esse roubo foi cercado de mistério, até que finalmente descobriu-se que os painéis foram destruídos durante um bombardeio no castelo da cidade, onde estavam escondidos. Toda a beleza deslumbrante dos painéis foi barbaramente destruída.
Em 2003, depois de décadas de trabalho meticuloso realizado por artistas russos, a Sala de Âmbar foi reconstruída e inaugurada no Palácio de Catarina, em São Petersburgo. Admirem a beleza impressionante dessa obra de arte.
A Sala de Âmbar fica no Palácio de Catarina de Tsarskoye Selo, perto de São Petersburgo. Foi um presente do Rei da Prússia Friedrich Wilhelm I para seu amigo e aliado, o tzar Pedro, o Grande. Ela se constitui de painés de âmbar apoiados em folhas de ouro e espelhos. O projeto é do escultor barroco Andreas Schlüter. A construção da sala foi iniciada em 1701, na Prússia, e permaneceu no Palácio de Charlottenburg até 1716. Na Rússia, o projeto sofreu acréscimos e alterações e chegou a ter seis toneladas de âmbar.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas desmontaram os paínéis de âmbar e os levaram para Königsberg. Durante anos, esse roubo foi cercado de mistério, até que finalmente descobriu-se que os painéis foram destruídos durante um bombardeio no castelo da cidade, onde estavam escondidos. Toda a beleza deslumbrante dos painéis foi barbaramente destruída.
Em 2003, depois de décadas de trabalho meticuloso realizado por artistas russos, a Sala de Âmbar foi reconstruída e inaugurada no Palácio de Catarina, em São Petersburgo. Admirem a beleza impressionante dessa obra de arte.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
HAVAIANO TIRA FOTOS DO INTERIOR DAS ONDAS
Um ex-surfista americano agora se dedica a uma atividade inusitada: fotografar o interior das ondas.
Clark Little, 39 anos, começou a fazer as imagens depois que sua mulher manifestou o desejo de ter uma foto para decorar o lar do casal, no Havaí. Há dois anos, vive do dinheiro que ganha com a venda das fotos.
"O mar é minha segunda casa e eu amo o que faço", disse Little. "Não existe para mim aquela sensação de encarar o trabalho como uma obrigação."
O fotógrafo conta que para obter as melhores imagens usa uma câmera capaz de bater até dez fotos por segundo. As ondas variam entre 90 cm e 4,5 m. Muitas vezes chegou a ser arremessado a até 10 m de distância de sua localização original.
"Sempre existe um risco para mim, por conta da força e tamanho das ondas. Mas minha experiência como surfista me deixa à vontade para encarar as ondas sem medo."
Clark Little, 39 anos, começou a fazer as imagens depois que sua mulher manifestou o desejo de ter uma foto para decorar o lar do casal, no Havaí. Há dois anos, vive do dinheiro que ganha com a venda das fotos.
"O mar é minha segunda casa e eu amo o que faço", disse Little. "Não existe para mim aquela sensação de encarar o trabalho como uma obrigação."
O fotógrafo conta que para obter as melhores imagens usa uma câmera capaz de bater até dez fotos por segundo. As ondas variam entre 90 cm e 4,5 m. Muitas vezes chegou a ser arremessado a até 10 m de distância de sua localização original.
"Sempre existe um risco para mim, por conta da força e tamanho das ondas. Mas minha experiência como surfista me deixa à vontade para encarar as ondas sem medo."
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
POLITICAMENTE CORRETO É O CACETE!
O texto que reproduzo a seguir não é meu, mas ilustra perfeitamente o que penso a respeito do exagero em torno do que seja "politicamente corrento". Dizia minha filha que, na Inglaterra, não se chama mais anão de dwarf, mas de "vertically challenged", e daí nada mais justo do que ela achar que gordo também pode ser chamado de "horizontally challenged". O texto é leve e divertido, como, aliás, são todos os textos do professor de história Luiz Antonio Simas, cujo blog acabei de descobrir.
Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?
É Villa Lobos, cacete!
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.
Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.
O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA
Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?
É Villa Lobos, cacete!
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.
Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
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